Uma fotografia, um país

JOSÉ MANUEL PUREZA

Em 'Anatomia de Um Instante' - prémio nacional de narrativa em Espanha em 2010 - Javier Cercas assume a fotografia de um Adolfo Suarez imperturbável diante dos tiros golpistas de Tejero Molina nas Cortes de Madrid como a condensação de uma série de trajetórias que operaram a transição democrática em Espanha. Em flashbacks sucessivos, Cercas segue cada um dos caminhos pessoais que convergiram para aquele momento. E assim o explica. Sugiro-vos um exercício idêntico sobre o estado de Portugal nesta transição para a ditadura dos credores. E eis a minha proposta: o estado da Nação é a fotografia de Vítor Gaspar curvado para o ministro das Finanças alemão a confidenciar-lhe um respeitoso "muito obrigado" depois da manifestação da disponibilidade de Schäuble para dar uma ajudinha quando se assumir publicamente que sem mais tempo e sem mais dinheiro Portugal não poderá seguir a estratégia ditada pela troika. No debate parlamentar desta semana, Paulo Portas pôs essa fotografia em prosa: "A nossa credibilidade é a nossa margem de manobra." O estado da Nação é essa fé de que a imagem externa nos salvará, essa crença de que se formos artistas no fingimento de que quanto mais esqueléticos mais força temos ainda conseguiremos dar a volta a isto.

Tal como no romance de Cercas, a fotografia de um agradecido Gaspar diante da prometida generosidade do seu congénere alemão é um densíssimo momento de síntese da História. Para ela convergem e dela partem histórias que fazem a História. A história da escolha de uma tareia recessiva à nossa economia, desde logo: a narrativa do empobrecimento como trampolim para o enriquecimento, a estratégia de encurtar a economia, de esvaziar o mercado interno, e de assim condenar o País a ficar mais pobre e ainda mais endividado. Gaspar agradece a Shäuble porque ambos sabem que a receita da troika se alimenta de si própria indefinidamente e que o rápido regresso à normalidade do financiamento nos mercados é pura ficção. Depois a história de uma política que era suposto aumentar a receita sendo que esta não para de diminuir: o maior aumento de impostos alguma vez registado em Portugal incide sobre rendimentos do trabalho cada vez mais curtos e sobre uma capacidade de consumo cada vez mais diminuída, o que obviamente resulta em arrecadamento em perda. Gaspar agradece a Shäuble porque ambos sabem que a política da troika não poderá nunca cumprir os seus objetivos e teimar em aplicá-la supõe mais e mais contração de empréstimos para pagar os empréstimos anteriores. Depois ainda, a história de uma vingança contra o trabalho e os direitos: a política da troika tem um sentido claro e ele é o embaratecimento do trabalho por todas as vias (diminuição de salários e pensões, perda de direitos sociais, desmantelamento de serviços públicos, pressão de um desemprego de valores inéditos e de uma precarização sempre mais agressiva). Gaspar agradece a Shäuble porque ambos sabem que o ganho de vantagens comparativas através de uma política de baixos salários é o mais efémero que existe e que um país que segue esse caminho se condena a depender das benesses de fora.

Tal como a fotografia do buzinão na ponte sobre o Tejo diz tudo sobre o que foi o cavaquismo e como ele alimentou o seu próprio fim, a fotografia do agradecimento de Gaspar a Shäuble enuncia o que é o País hoje. O País do Governo, claro. Porque a fotografia dos tantos milhares de batas brancas diante do Ministério da Saúde mostra que o estado da Nação também é outras coisas e que para ele convergem outras histórias.