Escolhas de ocasião

Na exacerbação de egoísmos e invejas de que se alimenta este sistema baseado na exploração e no lucro os direitos, por mais ou menos expressivos que sejam, são alvo preferencial de escrutínio. Ora contestados, porque havendo quem os tendo adquiridos deles deveria prescindir em nome dos que não os têm; ora alvo de ataque, porque apresentados como "privilégios" ou "interesses corporativos" se pretende retirar o que acabou conquistado pela luta de gerações, seja em horário de trabalho ou em matéria salarial; ora criticados, porque perante situações desiguais se procura assegurar que o seu nivelamento se faça por baixo - aí temos a cada dia exercitado esse rolo compressor que, posto em movimento por mote próprio ou pretexto externo, visa esmagar direitos e outros valores.

Já eram conhecidos aqueles argumentos que nos enxameavam a vivência: os que contestam o aumento de pensões de reforma baixas porque outras há ainda de menor valor; que face aos que tendo emprego a tudo se devem sujeitar em nome dos que se encontram desempregados; que olhando para os que trabalham em total desregulação de horário de trabalho veem em quem usufrui de 35 horas de trabalho semanal ou do sábado como dia normal de descanso.

Agora vimos exposta, a propósito da devolução do direito ao subsídio de Natal, uma tão curiosa quanto cínica tese: a do "direito de escolha". Poder-se-ia começar por explicar aos que turvados pela indignação não deram conta de que a eliminação desse subsidio correspondeu a um truque, esse sim, credor da legítima indignação de quem tenha pingo de vergonha. Ainda assim, para que não se perca o rasto às razões que o eliminaram, aqui se relembra o essencial: a diluição do subsídio de Natal nos meandros dos duodécimos visou disfarçar o corte de salários e pensões e o aumento da tributação sobre os rendimentos do trabalho e atenuar a reivindicação por aumentos efetivos de salários e reformas. Poder-se-ia ainda com menor margem de sucesso, por mais óbvia razão, lembrar aos que por aí vagueiam corroídos de insatisfação que o 14.º mês é uma conquista de Abril. Não o faremos até porque ainda que o negassem, fartos estão eles de o saber. Só não resistiremos a desnudar a ausência de seriedade dos que vieram defender a honra do chamado "direito de escolha" - é que esses mesmos que empertigados por tamanha ofensa não tenham tugido quando, sem a menor hipótese de escolha para centenas de milhares de trabalhadores e reformados, o governo anterior pura e simplesmente decidiu como decidiu nesta matéria.

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