Redes

Volta e meia, tenho de subir a vedação do jardim dos cães. Salto para cima do muro, ergo mastros, manejo a turquês. Uma vizinha passa e suspira, numa comiseração:

- Ai, Joel, que já estás nas redes outra vez...

E, no entanto, lá continuamos, eu e o Chico, puxa para cá e puxa para lá, arremata daqui e corta de lado.

Às vezes chove e ficamos os dois à chuva, berrando um com o outro num suplício. Outras faz sol e somos apanhados por aquela indolência de depois do almoço, rasgando os dedos nos arames, vociferando contra os picos das buganvílias.

Da última vez que subimos a vedação foi porque a Jasmim saltou para a estrada. Venceu o muro e a rede, atirou-se para cima da paragem da camioneta e, daí, lá para baixo para o alcatrão. A Catarina tinha-a deixado a tratar da higiene durante demasiado tempo - era hora de tentar entrar em casa por outro itinerário.

Eu agarrei automaticamente nas chaves do carro. Cheguei à Fábrica de Blocos e a rapariga olhou para a colega, como quem diz: "Ai, espero que tenhas encomendado as serrilhas..." Entrei na Construtora e o senhor careca esticou de imediato a mão para a prateleira, pondo sobre o balcão a lata de tinta do costume.

Tornei-me um cromo da Terceira. Mas também uma autoridade em vedações. No outro dia, o presidente da Junta passou aí e até sugeriu fazermos um pro bono com as redes da escola.

O Chico meneou a cabeça. Eu fiquei todo orgulhoso.

Agora ando a entrelaçar as trepadeiras na rede nova: a buganvília, o jasmim e as duas heras. Vou fumar um cigarro e fico naquilo. A certa altura, viro-me para trás e tenho os dois cães sentados a olhar para mim, com um ar sarcástico:

- Deves pensar, deves...

Mas ainda não tive de enfiá-los num canil de um metro quadrado, isso não tive. E talvez eles um dia saibam fazer justiça a isso.

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