destes vultos que se acomodam com tripas doces e farturas

Domingo, 26 de Junho

Um vento varre as ruas de Angra, vindo não se percebe bem de onde, e no ar paira um frio que os termómetros não seriam capazes de registar. Estamos no fim do dia já, e uns quantos vultos arrastam-se, como que atónitos, em direcções de que nem eles próprios parecem ter consciência.

Vários deles vêm da tasca das filhoses da Ribeirinha. Há mais de quinze anos que um grupo de senhoras, muitas entretanto tornadas idosas, percorrem as festas populares da Terceira, fritando filhoses para restaurarem a igreja da sua freguesia. Não havia dinheiros públicos, ou os dinheiros públicos não chegavam, de maneira que meteram mãos à obra.

Venderam milhares de filhoses, por esta altura - deliciosas, quentinhas, com um travo de banha e outro de limão. Durante uma dezena de anos restauraram o interior da igreja: o altar em talha, uma série de outros nichos cuja destruição vinha ainda do terramoto de 1980. Entretanto, há já uns cinco que angariam dinheiro para pinturas.

Mas, neste domingo de frio e silêncio, não chegaram a abrir a sua tasca (chamamos-lhe assim, "tasca", mesmo sabendo que não é de uma tasca que se trata). Aliás, está quase tudo fechado. É o último dia das festas, os concertos acabaram e, impossibilitados de comer filhoses da Ribeirinha (também lhes chamamos assim, "filhoses", mesmo sabendo que devíamos chamar--lhes "filhós"), os vultos vagueiam até se dividirem entre a fila das farturas e a das tripas doces, que o açúcar sempre consola um pouco desta desolação.

Ou talvez não seja consolo. Na verdade, há um romantismo no fim de uma festa: as cadeiras amontoando--se, estores corridos com estrépito, vozes avulsas, aquele vento que afinal é da alma. Podemos dar-nos ao luxo de uma desolação assim. Até às seis da manhã de sexta-feira passada, findas as marchas, éramos ainda milhares aqueles que enchiam a Rua de São João, bebendo, rindo e cantando o hino nacional, que aliás já cantáramos no ano passado, sem futebol nem nada.

As Sanjoaninas estão cada vez melhores - não fosse a Polícia e tínhamos ficado até às dez.

Acendo um cigarro e debruço-me na amurada sobre a Prainha, frente ao Monte Brasil, o mar devolvendo as primeiras rebrilhâncias da noite. Puxo do telefone, para tirar uma fotografia, e noto que tenho uma notificação. É mais um nativo indignado que, ao confrontar-se com o meu vídeo do povo cantando o hino de Portugal, duas noites antes, lamenta não se tratar, pelo contrário, do hino dos Açores.

Sorrio, ao recordar tantas dessas tolices que dizemos quando procuramos dizer uma coisa diferente. Penso nos jovens urbanos e ricos que erguem o punho contra a desigualdade só para poderem fazer do punho a sua tribo. Penso nos jogadores de PlayStation que o Estado Islâmico recruta nos bairros sociais, oferecendo-lhes uma tribo também.

Depois torno a lembrar-me da minha cidade, cantando o hino nacional. Daquelas senhoras da Ribeirinha, que fazem filhoses para salvarem a igreja da sua freguesia. Destes vultos que se acomodam com tripas doces e farturas - e de como, apesar de tudo, nem tudo está perdido.

Segunda-feira, 27 de Junho

Omeu avô teria feito sábado 100 anos. Morreu fez em Março 22. Foi a única pessoa que vi morrer e é, até hoje, a única que amei e já morreu. Mas nestes dias, em que se passa um século sobre o seu nascimento, tenho-me lembrado sobretudo do seu Fiat 127 vermelho, que comprou já velho - ele como o carro - e que conduziu até ao último dia, como é privilégio dos que morrem do coração.

Recordou-mo o vizinho Zeca, dali de baixo do Lameiro:

- Escuta, e o carrinho vermelho do teu avô?

Não tive resposta. Quando o meu avô morreu, eu estava na faculdade e não tinha dinheiro para ter um carro em Lisboa, quanto mais nos Açores. Deixei-o ser vendido para a sucata, quando na verdade tinha apenas um problema na caixa de velocidades, que nos impedia de meter a terceira.

Durante anos, fora o nosso carro. O meu avô gostava de armar caravanas com ele, fechando o cortejo e rindo-se quando, lá à frente, o meu pai tinha de reduzir numa ladeira. Vendemos castanhas naquele carro. Passeei namoradas com ele. Esperei tantas vezes, na cozinha lá de casa, para ouvir a sua buzina, de modo a irmos à cidade os dois - sempre meia hora antes, apesar de a cidade ficar a não mais de dez minutos.

O meu avô já só existe na nossa memória, mas o seu Fiat 127 vermelho, em que vendemos castanhas e íamos à cidade, podia continuar a existir. Ainda há dias voltei a deplorá-lo, ao ver o desfile de clássicos das Sanjoaninas. Ter um automóvel antigo é apenas um gesto de amor para com os automóveis. Ter aquele Fiat 127 seria um gesto de amor para com o meu avô.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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Os aspirantes a populistas

O medo do populismo é tão grande que, hoje em dia, qualquer frase, ato ou omissão rapidamente são associados a este bicho-papão. E é, de facto, um bicho-papão, mas nem tudo ou todos aqueles a quem chamamos de populistas o são de facto. Pelo menos, na verdadeira aceção da palavra. Na semana em que celebramos 45 anos de democracia em Portugal, talvez seja importante separarmos o trigo do joio. E percebermos que há políticos com quem podemos concordar mais ou menos e outros que não passam de reles cópias dos principais populistas mundiais, que, num fenómeno de mimetismo - e de muito oportunismo -, procuram ocupar um espaço que acreditam estar vago entre o eleitorado português.