Da vontade de rir e chorar

No blogue As Palavras do Regresso, Joel Neto e Catarina Ferreira de Almeida percorrem os Açores e os Estados Unidos em busca do que regressar significa para um povo de migrantes e viajantes.

São oito da manhã, e o motorista que me trouxe de volta a Lisboa, a tempo de um compromisso marcado à última hora, deixa-me nos limites do Lumiar, de modo a proteger-se das filas de trânsito. Há um cheiro a Verão em volta e uma luz deitada sobre as cordas de roupa nas varandas. Olho a pequena papelaria de bairro, de onde sai um senhor com um jornal da mão, e de repente, sem que perceba bem como, é 1997 outra vez. É 1997, e eu tenho 23 anos, e os passeios que bordejam as ruas são exactamente assim, desolados e libertadores, e as pessoas lêem jornais pela manhã, e é possível até que eu tenha escrito no que aquele senhor lê.

Há trânsito, evidentemente que há demasiado trânsito, mas hoje não é um dia daqueles. Compro o jornal também, ergo a mão a chamar um táxi e peço que tome o caminho de Benfica. Das colunas ecoam as notícias da TSF: Marcelo acusou Guterres de demagogia, afinal foi a miúda que se atirou a Clinton, concluiu-se mais um pavilhão da Expo. Está um andaime montado quase no meio da rua, afunilando a circulação, e apita-se bastante. Fecho os olhos, a tentar ignorar a tensão precoce, e dali a pouco a rádio passa das notícias aos Massive Attack: You are my angel/ Come from way above/ To bring me love.
Tudo na cidade se espreguiça hoje mais vital do que mecanicamente. Sou daqui também. Aqui regresso.

Lembro-me da Estela, que está a fazer um estágio na Holanda. Do Alcides, que amanhã segue para o Brasil, a ver a mãe. Tenho de telefonar-lhes. Lembro-me da Suzana que começou a trabalhar na Telecel, e da Pipa que eu gostava tanto de levar aos Açores, e da Yara que parece que arranjou um namorado francês. Saio do táxi, menos de 400 escudos como só num dia de pouco trânsito, e, como ainda tenho uns minutos, entro numa pastelaria para um café. Os clientes mastigam olhando a janela, tristemente, mas a certa altura entra um daqueles homens de meia-idade dados à jovialidade matinal, Ora bom dia, bom dia, bom dia!, e despertam quase todos da sua dormência, como se se dessem conta do quão boa, apesar de tudo, é a bica diante deles.

Tiro o meu Toshiba do saco preto que trago ao ombro. Abro o Wordstar com o texto que tenho em curso. Do outro lado do vidro passam autocarros. Alguns trazem palavras esdrúxulas escritas à ilharga, como Rodoviária. Uma rapariga ao volante de um Citroën AX leva um cigarro apagado entre os lábios. Pessoas à minha volta trocam piadas primárias, verdades absolutas, conselhos egoístas. Cheira intensamente a bolos quentes, para minha imensa volúpia, e por instantes tenho a certeza de que vou tomar este mundo sozinho, eu e o meu Toshiba - tenho a certeza de que vou pôr o mundo todo dentro do Toshiba e reduzi-lo a um texto só, a uma frase imortal, e talvez seja hoje mesmo o dia em que essa frase me vai ocorrer.

Só depois me lembro que não é 1997, mas 2018, e que essa frase ainda não me ocorreu, nem sequer esse texto, e que algumas das pessoas a que devia telefonar já nem estão na minha vida, de onde aliás saíram tragicamente. E que um táxi do Lumiar a Benfica não custa agora 400 escudos, mas seis euros, três vezes mais. E que tão-pouco eu vivo agora nesta cidade mas numa ilha, onde não preciso andar de táxi e em vez de andaimes tenho araucárias, buganvílias e rosas. Não se bebe um só bom café, em toda essa ilha, e de repente tenho vontade de chorar - e agora também já não sei se choro pelo lugar se pelo tempo, se por Lisboa se por 1997, se pelo que me rodeia ou pelos meus 23 anos, e o homem que quase fui, e tudo o que não fiz, e aquilo de que me livrei.

A vida é tanto uma tragédia como um milagre. Mas, se uma pessoa chega a uma idade em que quase tudo lhe dá vontade de rir e chorar ao mesmo tempo, pode concluir o quê, se não que a tem vivido? Uma vida em que não se ri nem chora, em que nenhum motivo é grande o suficiente para se rir e chorar - que vida teria sido essa, afinal?


AS PALAVRAS DO REGRESSO: UM LIVRO, UM FILME, UM BLOGUE.

A literatura portuguesa tem sido sobretudo uma literatura de partida. O projecto As Palavras do Regresso, da autoria do escritor Joel Neto e da tradutora Catarina Ferreira de Almeida, marido e mulher, propõe a viagem inversa: a do retorno.

Consiste num livro centrado em diferentes tipos de regresso, todos eles com as ilhas dos Açores como primeira referência; num documentário de cinema e televisão (com realização de Arlindo Horta) feito a partir das entrevistas com esses que regressam; e ainda num blog de viagem e making-of, já disponível em www.aspalavrasdoregresso.com.

O patrocínio é da FLAD-Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.
Do que falamos quando falamos de regresso? Quantas vezes menciona quem regressa a palavra «saudade»? E a palavra «casa»? E «mãe»? E «pertença»? Que palavras se repetem? Que palavras ficam por dizer? E, no fim da nossa viagem, qual será a suprema palavra do regresso? Eis a demanda.


OUTROS CONTEÚDOS RECENTES

Crónica de Catarina Ferreira de Almeida

Vídeo: uma estrada, a luz de Setembro e os Massive Attack

Jessica Carreira e David Costa: o regresso através dos sentidos (ou de como a gastronomia portuguesa valeu à cidade de San Jose a sua primeira estrela Michelin)

Os lugares da infância de Pauleta (apresentados por ele)

A memória do 11 de Setembro

Carlos Rafael: meio Corleone, meio Robin Hood - uma personagem para o cinema

Venceslau Reis, um homem da fajã

Que outra indústria, antes da da baleação, permitiu que índios e negros chegassem a postos de chefia?

O carrossel de "Phoebe Caulfield"

Como se corta o bacalhau no Portugalia Marketplace, em Fall River

Todos os conteúdos

Ler mais

Exclusivos

Premium

robótica

Quando os robôs ajudam a aprender Estudo do Meio e Matemática

Os robôs chegaram aos jardins-de-infância e salas de aula de todo o país. Seja no âmbito do projeto de robótica do Ministério da Educação, da iniciativa das autarquias ou de outros programas, já há dezenas de milhares de crianças a aprender os fundamentos básicos da programação e do pensamento computacional em Portugal.

Premium

Anselmo Borges

"Likai-vos" uns aos outros

Quem nunca assistiu, num restaurante, por exemplo, a esta cena de estátuas: o pai a dedar num smartphone, a mãe a dedar noutro smartphone e cada um dos filhos pequenos a fazer o mesmo, eventualmente até a mandar mensagens uns aos outros? É nisto que estamos... Por isso, fiquei muito contente quando, há dias, num jantar em casa de um casal amigo, reparei que, à mesa, está proibido o dedar, porque aí não há telemóvel; às refeições, os miúdos adolescentes falam e contam histórias e estórias, e desabafam, e os pais riem-se com eles, e vão dizendo o que pode ser sumamente útil para a vida de todos... Se há visitas de outros miúdos, são avisados... de que ali os telemóveis ficam à distância...

Premium

João César das Neves

Donos de Portugal

A recente polémica dos salários dos professores revela muito do nosso carácter político e cultural. A OCDE, no habitual "Education at a Glance", apresenta comparações de indicadores escolares, incluindo a remuneração dos docentes. O estudo é reservado, mas a sua base de dados é pública e inclui dados espantosos, que o professor Daniel Bessa resumiu no Expresso de dia 15: "Com um salário que é cerca de 40% do finlandês, 45% do francês, 50% do italiano e 60% do espanhol, o português médio paga de impostos tanto como os cidadãos destes países (a taxas de tributação que, portanto, se aproximam do dobro) para que os salários dos seus professores sejam iguais aos praticados nestes países."