Furacão

Há pouco fui à venda com o Chico. Estavam lá o Galão e o Jorge Abelha. Bebemos cafés e falámos do furacão.

O Galão, que tinha acabado de chegar dos pastos da serra, fez um ar trémulo:

- O pior disto é o frio.

E sorriu o seu sorriso traquinas, que só fica bem a garotos da primária e àquele lavrador de 60 anos, curvado por décadas a carregar bilhas de leite e com uns olhos tão azuis que hão-de continuar a brilhar muito depois de o resto do seu corpo se ter decomposto.

O Chico voltou para o jardim, a atar o jacarandá, e eu voltei para aqui. Entretanto, a minha mãe mandou-me uma mensagem:

- Se quiseres ovos, vem buscar.

O motorista da urbana tocou à campainha:

- Tenho aqui a massa sovada que a D. Catarina encomendou.

E o Chico apareceu-me à janela com um sinal enérgico de fim de tempo regulamentar, assim me informando de que tinha atado tudo e ia descansar antes de pegar ao serviço na padaria.

O meu telefone já tocara dezenas de vezes: familiares e amigos queriam saber como estávamos a preparar-nos para o Armagedão. Na minha caixa de e-mail, havia pelo menos duas dúzias de mensagens. No Facebook, os quadradinhos vermelhos das notificações e das mensagens pareciam palpitar.

É uma preocupação que ninguém aqui partilha. Quase ninguém - mesmo batendo no peito, como às vezes se verifica irresistível.

Quem tenha barcos para amarrar ou animais para arrecadar amarra os barcos ou arrecada os animais. Sobre os telhados mais periclitantes, talvez se encontre um homem compondo o mosaico, e nos jardins menos maduros, como o meu, haverá com certeza alguém - como o Chico - atando árvores.

Mas, de resto, a vida continua. E amanhã cá estaremos todos - queixando-nos do frio, que o Inverno já vai longo.

Tem sido quase sempre assim. Oxalá seja assim desta vez também.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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