Fairway

"Ele desfruta daquela paz perfeita", escreveu Wodehouse, "daquela paz para além de todo o entendimento, que só atinge o seu esplendor quando um homem desiste de jogar golfe."

Nunca o consegui. Desde que pela primeira vez pisei o verde, decidi centenas de vezes que não tornaria a desperdiçar quatro horas da minha vida em busca da perfeição. Uns dias depois, lá estava de novo, perseguindo (e agora parafraseio Churchill) o meu comprimido de quinino pela pastagem.

E, porém, de cada vez que piso o verde reencontro Wodehouse. Tenho sorte: escrever tornou-me gatuno, e raramente há um suspiro de um parceiro que me escape. Ademais, tenho procurado a perfeição na companhia de todo o tipo de gente: homens e mulheres, novos e velhos, ricos e pobres - jogadores de excelente nível, de nível mediano, de nível nenhum.

Todos, até hoje, comprovaram Wodehouse. Já joguei com Retief Goosen, Peter Hanson, Matteo Manassero. Comprovaram Wodehouse. Uma vez joguei um pro-am com um senhor do Porto que, quando chegou ao fairway do primeiro buraco, levava nove pancadas. Comprovou Wodehouse.

Há naquele jogo uma condição que não encontrei em nenhum outro. Ele é tecnicamente superlativo e psicologicamente voraz. Outros são assim. Mas ele é também, filosoficamente, um abismo reiterado, pancada atrás de pancada - e isso o torna redentor.

Nunca encontrei um golfista que não fosse, de algum modo, um homem devastado. Um homem ou uma mulher: há sempre um vácuo qualquer ali. Uma solidão, um sentimento de perda, uma incapacidade - como se só aquele abismo, aquele persistente olhar sobre o fim, nos lembrasse de que estamos vivos.

Às vezes setenta vezes numa tarde. Outras cento e vinte. Mas isso é outra conversa.

Eu gostava de poder deixar de jogar golfe. Mas não fui talhado para a paz perfeita.

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