Porto Aero

Dá mais em homens a imbecilidade, mas também pode dar em mulheres; dá mais em novos e de meia-idade, mas também pode dar em velhos, pode até dar em crianças; a imbecilidade não define as pessoas, se há coisa que aprendi foi isso, que somos um conjunto muito variado de coisas, umas boas, outras menos boas, outras ainda piores, mas que não nos definem. Mas nem toda a gente percebe isto e não consegue distinguir a imbecilidade do imbecil. Até porque há muitos imbecis que poucas ou nenhumas imbecilidades cometem.

Vem este arrazoado todo à liça porque ia escrever sobre a imbecilidade dos que se afligiram com a ida de Passos para o ISCSP - e agora não me queria enganar na sigla para ser como aqueles que dizem isquepe, ou isquecepu numa versão mais saudosista da nossa administração colonial, seja lá porque motivo for, sendo certo que ISCSP, depois de Expo, IKEA e wi-fi, é a coisa que tem mais pronúncias alternativas - mas já disseram tudo o que eu ia dizer sobre o caso, e melhor, o Carlos Reis no Facebook (trazendo John Major e Delors à baila) e o João Miguel Tavares no Público realçando que todas as reações são reações de ódio a Passos. E isso resolve--me um problema, mas cria-me outro. Resolve porque já não vou ter de escrever sobre a imbecilidade, o que fazendo ia até atingir amigos atingidos por este estado, e, dizia, cria-me um problema porque agora não sei o que escrever e o dia já vai avançado para entregar o texto, e alguém uma vez me disse que havia um cronista brasileiro que tinha escrito um texto sobre o texto de reserva que sempre lhe tinham dito para ter pronto para um imprevisto, um pneu furado, uma ressaca, um almoço que se prolonga, como o que tive hoje, mas que nunca escreveu. Escrever textos de reserva é como perguntar caminhos. E já eram quase quatro da tarde e continuava a falar-se com tempo da situação em Angola e da situação de Angola, de Londres, do vinho, de filhos e das mulheres (ou seria dos filhos e de mulheres? Estou agora com esta indefinição preposicional), do Costa.

No regresso a casa volto a passar pela maior imbecilidade de sempre, escrita nas estradas e ruas de Portugal, nunca vi no estrangeiro, mas deve haver porque há tudo no estrangeiro, a começar pela imbecilidade, que é aquela maneira de escrever as saídas na vertical no alcatrão dividindo a palavra em dois e escrevendo a palavra ao contrário com a primeira parte da palavra em baixo, e portanto mais próxima do carro que avança, e a segunda em cima. Por exemplo, Mão Porti na saída para Portimão, Rios Sete na saída para Sete Rios, Porto Aero na saída para o Aeroporto. A explicação, já me explicaram, é que se o carro vai a andar a primeira coisa que se lê é Aero, e depois, Porto. Mas o depois é uma fração de segundo depois, seus imbecis, e os olhos não leem em braile, ou tipo scanner, veem a palavra e leem aeroporto, pumba já está lido não é aaaaa eeee roooo poooo rrr tooo. É daquelas imbecilidades de alguém que acha que é muito esperto. Um homem, claro. Engenheiro, talvez. Simpático, com ideias, daquele tipo muito português muito perigoso que é o burro que trabalha e que fala claro. E deve ter explicado tudo bem explicado e disseram-lhe que sim.

Não esteve um dia bom para a produção de texto, não. É que depois ainda houve mais o Congresso do CDS, e dei por mim a seguir um congresso do CDS, coisa que nunca tinha feito. Tinha, em 1998, no carro, com o meu avô, quando Portas limpou Manuel Monteiro entrando na sala, arrancando aplausos e mudando o CDS para sempre (andava na faculdade, infelizmente sem nenhum antigo primeiro-ministro como professor). Cristas quer ser primeira--ministra e isso sente-se e dá votos, reuniu-se de gente muito competente, cosmopolita, liberal e social, pragmática para o programa eleitoral, uma equipa fresca que parece saber aquilo de que Portugal precisa. Sob o carisma visionário do Adolfo Mesquita Nunes, cabeças sólidas e arejadas como a Ana Rita Bessa, a Graça Canto Moniz ou o Francisco Mendes da Silva vão de certeza ajudar a pensar num Portugal melhor. E reparei hoje, vinha no carro, o CDS assim quase que parece o CiudaDanoS, a sigla até já dá. Ia a pensar nisto a chegar à saída para o Porto Aero. Ainda lhes meto uma cunha para tratarem também disso quando lá chegarem.

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