A ramirização do espaço público

Sobre o caso Raríssimas, o ponto de partida é fácil: se houve desvio de fundos, violação por ação ou omissão de deveres de controlo interno e externo ou apropriação em proveito próprio, então tem de haver investigação e justa responsabilização criminal, disciplinar, política, o que for. E, se aqui chegarmos, dúvidas não haverá de que o trabalho jornalístico que aqui nos trouxe é meritório, bem como a atitude daqueles que, de dentro da organização, ousaram expor e desmascarar. Deve haver ação rápida e clara para que não paire sobre esta associação, aqueles que a ela estão ligados e o setor social em geral qualquer tipo de suspeitas indevidas, e que haja também a coragem de, se for essa a conclusão, inocentar aqueles que já aparecem como condenados na boca e na ponta dos dedos de todos. Disse isto no debate que tenho com o Francisco Assis na Renascença (às 09.15 todas as terças e quintas, para os interessados) e também na RTP3 com a Ana Drago (terças, 22.15, para os interessados). E isto também, de uma forma ou de outra, tem dito toda a gente que fala sobre o assunto, e portanto não é sobre isto que quero escrever, nem sobre se o ministro se deve demitir, ou quem sabia o quê, nem do enredo de uma telenovela que mete dinheiro, doenças, paixão, vilãs, poder e desgraça.

Quero escrever sobre um clima que não está propício a que se veja algum outro ângulo desta realidade, que como todas as outras não há de ter um só. Vivemos um tempo em que é esperado que todos nos indignemos muito, e que nos indignemos o mesmo seja com cem mortos em incêndios como com duzentos euros em gambas. Quem não se indignar, quem não clamar mais do que o anterior, quem não condenar à pena mais grave, à masmorra mais escura, ao garrote mais apertado, é um imoral, um perigoso relativista; no limite, um daqueles que justificam e elegem isaltinos. A indignação não pode ser matizada, tem de ser absoluta; nem pode ser ponderada, tem de ser imediata e incondicional. Todo o deslize moral que seja noticiado, qualquer dúvida sobre a probidade de alguém, exige de todos nada menos do que nos exigiria o Holocausto.

Indignação absoluta e incondicional dá likes e shares e retweets, e protege. A consequência é um instinto de autocensura sempre que a nossa mente nos sugere um se, um mas, um por outro lado. Por exemplo, será que não é incoerente tanta gente que anda ou andou ou quer andar de BMW e motorista do Estado, totalmente pagos pelos nossos impostos, criticar a senhora por ter um BMW numa associação parcialmente paga pelos nossos impostos? Nem pensar em dizer uma coisa destas, nem sequer apenas para provocar o argumento e ouvir uma resposta que demonstre que se está errado. Nem pensar em sequer insinuar que se cheira em alguma desta indignação a irritação pelo facto de a doutora ter querido e ter conseguido sair do quiosque dos jornais, coisa que não devia ter ousado desde logo porque não era doutora de papel passado.

Pus-me também na posição de um pai. Por exemplo, e se a L. que está ali no sofá a ver um episódio do Chef"s Table (com a minha autorização, revogando a proibição da mãe, que a tarde com o pai era para ler e não para ver Netflix), e que em dez anos a única aflição de saúde que nos deu foi na semana passada ter engolido parte do arame do aparelho dos dentes, tivesse uma doença grave ou rara? Como veria eu todo este caso? Partilhei no Facebook aquilo que chamei "uma reflexão contra a corrente". "Se eu tivesse um filho com a doença y, queria a Associação das Doenças YY com o maior número possível de ex e futuros governantes na manjedoura. E se a associação fizesse o seu trabalho - fazer lobby pelos tratamentos da YY e comparticipações nesses tratamentos e prestação de cuidados - não sei se uma lua-de-mel no Leblon ou um jantar de gambas me tiravam o sono." Este não sei era sincero. Não sei mesmo. Ao contrário de mim, os meus amigos do Facebook, que são um poço de virtudes, e talvez por isso sejam meus amigos (e aqui a ironia é mesmo só residual), sabem. Caíram em cima de mim, que eu defendo o "rouba mas faz" (Ademar de Barros), e que é por as pessoas pensarem assim que se passou o que se passou em Oeiras (Isaltino Morais), e que o pragmatismo tem limites. Fiquei a pensar no argumentum ad isaltinum, que penso sempre nas críticas de quem considero. Mas continuo sem saber o que pensaria naquela situação, naquela situação real. Não na situação ideal, utópica, em que tudo é certo e não há mal, nem doenças comuns, nem raras. Nesta situação concreta de pai. Eles sabem: sentiriam vergonha, não admitiriam, etc. Eu? Eu não sei. Talvez devesse ler mais o Kant, ou voltar ao Cícero, rever o meu compasso moral. Tive há uns anos uma experiência profissional complexa, em que havia, no meio daquilo tudo, uma pessoa que dizia, perante elucubrações várias, que "isso estava tudo muito certo, mas o problema da realidade é que a realidade é real". E a realidade real é que, enquanto uns absorviam o Séneca, e outros nem isso, quem fez o que fez foi a senhora do quiosque, não fomos nós nem outros. Foi ela. Fez o bem, e fez as gambas. Mas o espaço público cada vez mais parece o Ramiro: só interessam as gambas.

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