A melhor parolada que aconteceu

Achar que a Web Summit (WS) é uma parolada é uma parolada tão maior que falar sobre isso seria impossível sem cruzar a linha do insulto, sempre deslocada, ainda mais num texto de aniversário.

Começando pelo óbvio: trazer a Lisboa milhares de pessoas anualmente é sempre bom, ainda mais se essas pessoas forem investidores e empreendedores de países variados, idade baixa e atitude alta. Alguns deles mudam-se para Portugal e trazem mais atrás deles, um tipo de imigrantes que precisamos desesperadamente e por quem devíamos estar a competir diariamente.

Além dos geeks, a WS tem um programa cada vez mais vasto com oradores oriundos de vários recantos da boa luta. Por exemplo, há poucos dias (23/12), o tribunal de recurso nos EUA declarou ilegal o travel ban de Trump. O advogado que conseguiu esta vitória, Neal Katyal, foi um dos oradores da WS.

Mas seria miopia extrema reduzir as vantagens para o país à subida da ocupação hoteleira, às visitas de senhores importantes e às ruas povoadas de gente empreendedora e bonita. A WS obriga o Estado a refletir e a renovar o seu credo pela inovação. Tendo Portugal, por razões conhecidas, começado a corrida da competitividade com três pernas partidas, não pode deixar de tudo fazer para estar no pelotão da frente da transformação digital, no grupo de países com uma política aberta e amiga do investimento no que diz respeito às novas formas de mobilidade (como parece estar finalmente a acontecer com a provável aprovação em janeiro no Parlamento da lei que regula o transporte através de plataformas digitais), que nos permita voltar a estar no mapa dos ensaios clínicos e faça da proteção de dados um vetor de progresso tecnológico e não uma barreira. Portugal precisa de arriscar, de não temer a inovação e de ousar legislação adequada a novos fenómenos. Fala-se da desertificação do interior, temos um aeroporto em Beja onde não há nem aviões nem passageiros. Pois bem, por que não virar isso a nosso favor e abrir áreas a zonas-piloto de testes com veículos sem condutor, drones ou mesmo carros voadores?

Que a WS sirva também para reformular a cultura de algumas das estruturas do Estado ligadas ao empreendedorismo, que sejam menos burocráticas e mais eficientes e profissionais, abertas e transparentes (por exemplo, os benefícios fiscais do Programa Semente não funcionam). E se a WS servir ainda para criar uma geração de empreendedores lusos menos pendurados no Estado e que não debitem siglas de fundos comunitários com os olhos a brilhar logo nos primeiros minutos de conversa, então a WS já valeu mais do que uma centena de grupos de trabalho e reflexão.

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