O populismo e o Dr. Pavlov

Sim, reconheço: há um certo masoquismo entre os projetos do PS para a chamada "transparência" da classe política (e dirigentes públicos em geral). Não entendo, por exemplo, porque é que o projeto sobre a "representação de interesses" (lobbying) só abrange esta atividade quando exercida sobre deputados da Assembleia da República. Posso estar muito enganado, mas palpita-me que o lobbying a sério se exerce muito mais sobre os poderes executivos (governo, administração pública, empresas públicas, autarquias, etc.) do que sobre os legislativos (Parlamento, assembleias municipais).

Dito isto, começa a cheirar a reflexo condicionado à Pavlov quando se grita "vade retro populismo!" sempre que aparecem projetos de reforço da exigência sobre a classe política. Pessoalmente, não estou bem a ver o que há de errado num Código de Conduta que recomenda aos deputados que não aceitem nem prendas nem viagens nem idas ao futebol que custem mais de 150 euros. Era preferível, claro, que não fosse necessário legislar - se toda a gente percebesse por si própria aquelas limitações, sem ninguém ter de lhes dizer nada. Mas estamos em Portugal - isto não vai lá com subentendidos.

Nos dias que vivemos, com o espaço público - o da opinião publicada mas também (e sobretudo) o das pocilgas digitais - tomados pela exploração dos piores sentimentos das pessoas (inveja social, racismo, xenofobia, sexismo, sectarismo acéfalo, etc.), não há combate mais nobre do que a esta deriva fascista. Mas esse combate perde-se se a resposta for simétrica: uma recusa total e absoluta a qualquer iniciativa que, como já disse, reforce as condições de exigência perante o exercício da política e dos cargos públicos. Ficam os advogados - por exemplo - fora da função parlamentar, com o aperto do crivo das incompatibilidades? Não, a não ser que queiram. Não podem é advogar, claro. Quão difícil é perceber a enorme superfície de promiscuidade possível quando alguém advoga e faz leis ao mesmo tempo?

Tenho para mim que o único caminho é uma espécie de moderação radical. Ou seja, uma defesa intransigente, sem nenhuma cedência, do equilíbrio nas posições políticas, balizada pelos melhores princípios da ética democrática: probidade, compromisso, competência, sentido da prestação de contas e, enfim, doses enormes (porventura inumanas) de bom senso. Ou seja: isto não tem de ficar resumido a um combate de extremos entre populistas, de um lado, e corporativistas, do outro. Sendo a posição mais difícil, esta é a única sensata: a do meio.

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