De que serve a habilidade negocial de Costa?

Esta foi a semana em que se confirmou aquilo que suspeitávamos que aconteceria mais tarde ou mais cedo: a famosa "habilidade negocial" do primeiro-ministro não chega para tudo. Através do seu interposto amigo Diogo Lacerda Machado, o primeiro-ministro julgou ter resolvido o caso Isabel dos Santos-BPI. Mas viu-se que não resolveu nada, e importa perceber porquê.

Provavelmente, nunca ninguém chegou a primeiro-ministro em Portugal com tanta experiência política acumulada como António Costa. Comparando com Passos Coelho, a diferença é do dia para a noite. Passos, quando chegou a São Bento, tinha sido deputado e líder da JSD; Costa tinha sido deputado, líder parlamentar, eurodeputado, secretário de Estado, ministro de três pastas diferentes (Assuntos Parlamentares, Administração Interna e Justiça) e, por último, presidente da maior câmara municipal do país, Lisboa.

O lado negativo deste impressionante currículo político é que a experiência governamental de António Costa terminou em 2007 (quando deixou o governo para ser candidato à Câmara de Lisboa). Ele é, portanto, um político de um tempo em que a União Europeia fechava simpaticamente os olhos a mais ou menos todos os desvios, desde o défice à dívida, já para não falar do que criminosamente se desperdiçou em fundos comunitários.

Ora, voltando ao caso BPI-Isabel dos Santos, se o Banco de Portugal não concedeu "idoneidade" à empresária para ser administradora bancária no BIC - fator que parece ter sido decisivo no seu recuo ao supostamente acordado com o BPI -, isso resulta precisamente da nova ordem europeia que se forjou a partir de 2010-2011, com os resgates da Grécia, da Irlanda e de Portugal.

A nova ordem europeia não se compadece com conversa mole e "habilidade negocial", um telefonema para um presidente camarada em Paris ou um almoço mais prolongado em Berlim com um chanceler amigo de longa data. O tempo é outro: regras estritas, quase automatismo nos procedimentos, e muita exigência - a exigência que levou o Banco de Portugal a ter de adotar diretivas europeias muito apertadas no que toca à autorização para a atividade bancária.

Este é, assim, o tempo em que a tal "habilidade negocial" pode ser tão inútil quanto perigosa (porque cria ilusões que rapidamente se transformam em desilusões). A "habilidade negocial" do presente e do futuro já só é mesmo aquela que percebe exatamente os seus limites e funciona dentro deles. Talvez o caso Isabel dos Santos-BPI sirva de exemplo.

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