Parque Eduardo VII: deitar abaixo e fazer de novo

Fazer do Parque Eduardo VII um verdadeiro parque era uma boa forma de começar a mudar a cara à cidade

Portugal tem dificuldade em fazer as coisas bem feitas, mas tem muito mais dificuldade em refazer as coisas mal feitas. O Parque Eduardo VII é um bom exemplo dessa incapacidade - podíamos também chamar-lhe falta de coragem - para emendar os erros óbvios. O parque desempenha apenas duas funções anuais: albergar a Feira do Livro durante 17 dias e servir de local de engate durante 365. É manifestamente pouco para o espaço verde mais extenso do centro de Lisboa. Agora que estamos na pré-época das eleições autárquicas, com entrevistas de candidatos nos jornais e sondagens apertadas e muita vontade de discutir os problemas da cidade, eu deixo aqui a minha modesta contribuição para o debate: reformular toda a zona central do Parque Eduardo VII e fazer ali um jardim a sério.

O que deveria ser um dos espaços de eleição de Lisboa foi alvo de todas as maldades no decorrer do século XX. Durante a instauração da República, o parque teve a nobre função de servir de trincheira dos revoltosos. Entre as décadas de 10 e 40, foi um morro mais ou menos abandonado (embora com um lago invejável). Na década de 40, um arquitecto respeitável como Keil do Amaral conseguiu desenhar a inutilidade que hoje podemos apreciar, uma maravilha do Estado Novo que só serve para tostar turistas no Verão. E a cereja em cima do bolo foi o pirilau de homenagem ao 25 de Abril da autoria de José Cutileiro, um escultor com muitos méritos mas que naquela ocasião foi tomado pelo delírio criativo sem que ninguém tivesse tido a clareza de espírito de lhe sussurrar ao ouvido "se calhar, não era bem isto" (por respeito, evidentemente, à "liberdade artística"). Cem anos passados, já vai sendo hora de alguém se chegar à frente e dizer: "do Marquês até ao Eleven, é deitar abaixo se faz favor".

Quem hoje olhe para Lisboa certamente chegará à conclusão de que o amor que devotamos à calçada portuguesa é inversamente proporcional ao amor que dedicamos às árvores. O resultado é uma sobrecarga de cinzento, um défice de verde e um sem-número de praças - do Camões à Praça do Município, passando pelo Terreiro do Paço - cheias de pedrinhas rendilhadas e geometrias comoventes, mas sem uma sombra que se veja. Quando se aterra de avião na Portela vindo do Atlântico é muito bonito. Para quem vive cá em baixo é uma seca imensa e um óptimo convite para nunca lá pôr os pés. Eu sei que Lisboa é um ninho gigantesco de problemas, daqueles muito "macro", como o trânsito, a segurança e a habitação. Mas há "micros" que podem fazer a diferença. E fazer do Parque Eduardo VII um verdadeiro parque, com pessoas, actividades e vida, era uma boa forma de começar a mudar a cara à cidade.

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