Revendo a ditadura de Ceausescu

A cultura televisiva dominante ensina-nos todos os dias a menosprezar as imagens. Literalmente. Estamos, afinal, a falar de uma cultura que promove como emblema a estética grosseira dos "apanhados", não apenas em registo cómico (?), mas também no dia-a-dia informativo. Assiste-se mesmo a uma profunda degradação de valores: um repórter que "apanhe" um político a sair de uma porta qualquer e lhe faça uma pergunta provocatória (a que só é possível responder com uma muito humana hesitação...) é mesmo visto como padrão do "heroísmo" jornalístico.

Esta miséria filosófica tem uma expressão prática muito concreta: cada imagem é tida como elemento "transparente" de uma cadeia de significações que a própria televisão controla e impõe. Ignora-se, assim, que uma imagem não é um elemento cândido de uma qualquer universalidade comunicacional. Que é como quem diz: a sua existência, percepção e sentido é inseparável do contexto onde está (ou foi) inserida.

Estreou esta semana entre nós um extraordinário filme romeno, A Autobiografia de Nicolae Ceausescu, de Andrei Ujica, cujo trabalho pode funcionar como uma salutar pedagogia contra esse tipo de imposturas televisivas (vale a pena ler a entrevista de Eurico de Barros ao realizador, publicada no DN de quinta-feira). O projecto é muito simples: retraçar a trajectória politica de Ceausescu, desmontando a pose e iconografia do seu poder ditatorial. Mas ao contrário do que é habitual em televisão (e, em boa verdade, em áreas significativas da produção documental), o filme não aplica nenhum dispositivo "exterior" para lidar com imagens de arquivo. Mais ainda: é todo construído com essas imagens (oficiais e de propaganda).

A proeza cinematográfica (e muito política, hélas!) de A Autobiografia de Nicolae Ceausescu decorre de um gesto essencial: a deslocação de contexto das imagens. A metódica acumulação dos materiais de arquivo vai fazendo com que as imagens denunciem aquilo que, por princípio, tentavam ocultar: o esvaziamento dos discursos oficiais, a falsidade teatral das cerimónias públicas, a crescente rarefacção de espectadores nessas cerimónias, etc., etc. Nada disto é automático ou imanente. Nada disto resulta da vocação "informativa" das imagens. Tudo isto depende de uma laboriosa e subtil montagem e, no limite, da sábia criação de uma nova estrutura dramática.

Andrei Ujica celebra, assim, a verdade mais radical do mundo audiovisual (não por acaso também a mais recalcada pela maioria das regras televisivas). A saber: nenhuma imagem é objectiva. Tudo o que se faz com uma imagem remete para olhares, visões, leituras, interpretações, coisas pensadas e coisas por pensar. Que vemos, então, numa imagem? O mundo "reproduzido"? Vemos antes o mundo prolongado através de uma nova configuração dos seus elementos visuais. E isso remete para a responsabilidade de alguém. Sempre.

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