Por amor dos livros

Moral da história: é tudo uma questão de perceção. Assim, a monstruosidade do Monstro (a redundância, convém não esquecer, faz parte deste universo narrativo) começa a esbater-se quando a Bela cita Shakespeare e ele, de memória, completa a citação. Um pouco mais tarde, o Monstro abre-lhe o coração. Aliás, e para sermos mais precisos, com ou sem metáfora: ele abre-lhe as portas da sua imensa biblioteca. Conquistada por tão imponente património escrito, a Bela, porventura ainda sem o saber, já começou a amar o Monstro, assim cumprindo os desígnios da fábula. Há outra maneira de dizer tudo isto: a nova versão de A Bela e o Monstro existe em íntima ligação com o universo dos livros. Pela sua inspiração, claro, mas sobretudo porque a relação entre os dois protagonistas se vai selando através desses objetos que podem ser tocados, lidos e relidos - é mesmo através de um livro mágico que acontece a revisitação de Paris, numa cena calculadamente psicanalítica em que, finalmente, a Bela (e o espectador com ela) encontra a memória perdida da mãe .Não há muitos filmes deste universo de produção - em boa verdade, de todo o cinema que, atualmente, convoca os espectadores infantis e juvenis - que contenham esta celebração sensual dos livros, dispensando o patrocínio de super-heróis que derrubam arranha-céus por cada monossílabo que pronunciam. Não que A Bela e o Monstro com chancela Disney seja um filme alheio aos poderes digitais. Longe disso. Acontece que as fábulas se fazem também do modo como integram sinais e objetos do nosso mundo: lobos e candelabros, pianos e chávenas de porcelana, livros e mais livros. Quando as mãos da Bela e do Monstro se tocam sobre um livro, pressentimos que a magia já está do lado do erotismo. Não se assustem, que as crianças também não.

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