Para (não) acabar com o cinema em Portugal

A notícia da reabertura das salas de cinema é, obviamente, uma boa notícia. Corresponde, além do mais, a um desejo de reencontro dos filmes nas salas escuras que, mesmo em tempo de pandemia, mesmo com o espectacular incremento da exibição online, muitos nós temos experimentado.

E talvez não seja abusivo supor que alguns números que nos chegam dos EUA possuem um valor sintomático universal. Assim, de acordo com uma sondagem da Atom Tickets (empresa de venda de bilhetes por vias virtuais, app e net), divulgada na terça-feira, 77% dos espectadores mostram-se disponíveis para regressarem aos cinemas, embora com diferentes calendários: 25% querem voltar desde já, 34% esperam fazê-lo no prazo de um mês e 18% no prazo de dois; dos restantes, 21% preferem aguardar que exista uma vacina contra o coronavírus, havendo apenas 1% que não pretende voltar a por os pés num multiplex.

Seja como for, cada caso é um caso. No contexto português, empresas do sector da distribuição/exibição levantaram algumas dúvidas sobre a justeza da decisão do governo, estabelecendo a segunda-feira, 1 de junho, como data de reabertura das salas. Num texto anterior (DN, 25 de maio), dei conta da minha perspectiva sobre tais dúvidas, em função daquilo que me parecia (e continua a parecer) uma forma equívoca de formular a questão: não se trata apenas de saber se tais empresas têm ou não produto para sustentar essa reabertura; trata-se também de saber que estratégias de formação e consolidação de públicos existiram, ou não, ao longo das últimas décadas.

Continuo a pensar que, em termos gerais, a dependência do mercado em relação aos "blockbusters" da indústria americana foi afunilando a oferta, diminuindo a sua variedade e, por fim, produzindo um efeito perverso nas dinâmicas da procura. No limite, provocando mesmo o afastamento de muitos espectadores das salas escuras.

Como escrevi no meu texto, há um drama pendente, inerente a esta situação: se a reabertura das salas correr mal (não confirmando, por exemplo, as expectativas que existem no mercado americano), os trabalhadores das respectivas empresas serão sempre os mais penalizados. Por isso mesmo, creio que vale a pena sublinhar uma questão que o meu texto, erradamente, não explicitava. É uma questão de uma só vez logística e mediática: creio que será pouco operante fazer depender o relançamento do mercado de uma abertura "simultânea" de todas as salas.

Na verdade, o tecido cinematográfico português possui um número considerável de espaços de exibição cuja gestão financeira depende, e muito, de um delicado jogo de equilíbrios entre receitas, por um lado, e custos de manutenção e arrendamento, por outro lado. Esperar, eventualmente exigir, que todas as salas abram no mesmo dia, como uma espécie de "milagre" que se renova, poderá ser extremamente penalizador para algumas dessas salas.

Num país em que, no cinema e não só, se fazem tantas campanhas de "motivação" completamente gratuitas, ineficazes e muito dispendiosas, este pode ser um momento oportuno - cultural e comercialmente saudável - para repensar o consumo do cinema através de uma questão básica. Não apenas "o que há" para programar (questão também vital, ninguém duvida), mas também "como" se programa.

Seria, talvez, oportuno que as empresas envolvidas, por certo em diálogo com algumas instâncias governamentais, repensassem tal questão, na certeza de que a venda de bilhetes mais baratos num determinado dia da semana pode ser uma medida necessária, mas está longe, muito longe de ser suficiente.

Aliás, mais uma vez, não simplifiquemos. Num país em que, mesmo não esquecendo as iniciativas que abrem brechas em tal estado de coisas, o cinema está longe de ser tratado como matéria nobre da educação (de crianças e adolescentes), não se pode esperar que as empresas cinematográficas resolvam, por si, os problemas que a própria sociedade, institucionalmente e eticamente, não enfrenta.

Apesar disso, ou precisamente por causa disso, a mobilização dos consumidores é uma tarefa em aberto que exige inteligência estratégica e comercial. Definitivamente, fazer depender o mercado do "blockbuster" que, trimestralmente, a Marvel vai lançar... não é uma estratégia.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG