O cinema e a sedução dos 'primitivos'

Este ano, em Veneza, Marco Bellocchio vai receber um Leão de Ouro pela sua carreira. Não será, por certo, mera homenagem decorativa ao autor de títulos como I Pugni in Tasca (1965), O Diabo no Corpo (1986) e Bom Dia, Noite (2003). Celebrando a veterania de Bellocchio, o certame sublinha a ideia de desafio e experimentação que faz parte da sua história lendária.

Estamos, afinal, a falar do mais antigo festival de cinema do mundo, fundado em 1932 como uma "Exposição Internacional de Arte Cinematográfica". E se é verdade que a dimensão especificamente artística lhe conferiu, sobretudo nas últimas décadas, alguma vulnerabilidade face à agressividade comercial de outros eventos (Cannes, desde logo), não é menos verdade que a preservação do "primitivismo" tem ajudado a manter uma identidade plena de nobreza.

Vale a pena atentar nas palavras do director Marco Müller no site oficial do festival (labiennale.org/en/cinema), numa declaração que envolve uma longa reflexão sobre o estado das coisas (cinematográficas e não só...). Escreve ele: "O sentimento de contemporaneidade não nasce do conhecimento ou aplicação de determinados recursos e técnicas." E lembra, de forma inequívoca, que "a criatividade não pode estar subordinada" a tais recursos e técnicas.

Com experiência adquirida como director dos festivais de Roterdão (1989-1991) e Locarno (1991-2000), Müller cita dois nomes cuja obra será objecto de revisitação em Veneza/2011: Roberto Rossellini, referência tutelar do cinema moderno (italiano e não só) e Nicholas Ray, símbolo perene do individualismo no interior de Hollywood. Como Müller diz, eles são fundamentais "para compreendermos o mundo em 2011".

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