Por amor das palavras

Vivemos num país em que a vulgaridade do falar, promovida pelo Big Brother e suas quotidianas derivações, se transformou numa poderosa escola de deseducação afectiva e também de desamor pela língua portuguesa. Se mais razões não houvesse, isso bastaria para transformar um filme como Cartas da Guerra, de Ivo M. Ferreira, num dos grandes acontecimentos culturais da nossa história recente: a encenação cinematográfica das cartas de António Lobo Antunes (para sua mulher, Maria José, durante uma comissão de serviço nos anos da Guerra Colonial) funciona, antes de tudo o mais, como uma fascinante celebração das palavras. De amor pela sua infinita fragilidade.

Não se trata, entenda-se, de "ilustrar" tais palavras a partir de um banal processo de "reconstituição" histórica. Acontece que, no seu misto de convulsão e pudor, as páginas escritas por Lobo Antunes não são, de facto, "sobre" a guerra, antes participam dela como um exercício de inscrição e fuga, sofrimento e libertação - releia-se, por isso, a precisão do título: Cartas da Guerra.

De forma rara e preciosa, o filme consegue relançar-nos nas memórias de um conflito colonial que, obviamente, tem sido profusamente estudado e analisado (inclusive por outro­s filmes), mas que continua a existir de forma difusa, quase sempre imprecisa, no nosso falar social. É, nesse sentido, um filme genuinamente coral: porque as palavras das cartas transcendem os lugares que descrevem e também porque o cinema se confunde, aqui, com o temor de uma filosofia tão delicada quanto essencial. A saber: quando dizemos que somos portugueses, que factores reconhecemos como marcas da nossa existência comum? Cartas da Guerra é um filme com o qual, literal ou simbolicamente, desejamos corresponder-nos.

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Rosália Amorim

"Sem emoção não há uma boa relação"

A frase calorosa é do primeiro-ministro António Costa, na visita oficial a Angola. Foi recebido com pompa e circunstância, por oito ministros e pelo governador do banco central e com honras de parada militar. Em África a simbologia desta grande receção foi marcante e é verdadeiramente importante. Angola demonstrou, para dentro e para fora, que Portugal continua a ser um parceiro importante. Ontem, o encontro previsto com João Lourenço foi igualmente simbólico e relevante para o futuro desta aliança estratégica.

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.