Por amor das palavras

Vivemos num país em que a vulgaridade do falar, promovida pelo Big Brother e suas quotidianas derivações, se transformou numa poderosa escola de deseducação afectiva e também de desamor pela língua portuguesa. Se mais razões não houvesse, isso bastaria para transformar um filme como Cartas da Guerra, de Ivo M. Ferreira, num dos grandes acontecimentos culturais da nossa história recente: a encenação cinematográfica das cartas de António Lobo Antunes (para sua mulher, Maria José, durante uma comissão de serviço nos anos da Guerra Colonial) funciona, antes de tudo o mais, como uma fascinante celebração das palavras. De amor pela sua infinita fragilidade.

Não se trata, entenda-se, de "ilustrar" tais palavras a partir de um banal processo de "reconstituição" histórica. Acontece que, no seu misto de convulsão e pudor, as páginas escritas por Lobo Antunes não são, de facto, "sobre" a guerra, antes participam dela como um exercício de inscrição e fuga, sofrimento e libertação - releia-se, por isso, a precisão do título: Cartas da Guerra.

De forma rara e preciosa, o filme consegue relançar-nos nas memórias de um conflito colonial que, obviamente, tem sido profusamente estudado e analisado (inclusive por outro­s filmes), mas que continua a existir de forma difusa, quase sempre imprecisa, no nosso falar social. É, nesse sentido, um filme genuinamente coral: porque as palavras das cartas transcendem os lugares que descrevem e também porque o cinema se confunde, aqui, com o temor de uma filosofia tão delicada quanto essencial. A saber: quando dizemos que somos portugueses, que factores reconhecemos como marcas da nossa existência comum? Cartas da Guerra é um filme com o qual, literal ou simbolicamente, desejamos corresponder-nos.

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