Paris e os "coletes amarelos": entre o ferro velho e o cosmos

Como olhamos as imagens que nos chegam das ruas de Paris? Ou melhor: para além da agitação dessas imagens, como pensamos a vida das nossas sociedades?

Eis uma maldição mediática dos nossos dias. A proliferação de canais de difusão e comunicação transformou-nos, todos, em tardios filósofos pós-modernos. Repare-se: ora com avidez, ora em pose de indiferença, consumimos o caudal infinito de imagens a que temos acesso - do televisor ao computador, passando pelo telemóvel -, ao mesmo tempo que nos perguntamos, entre sedução e desconfiança, o que significa esta avalanche de informação.

De tal modo estamos envolvidos nas delícias pueris dessa vertigem que nem sequer formulamos a mais básica interrogação (filosófica, justamente): por que é que passámos a associar a informação apenas aos nossos múltiplos ecrãs, menorizando, porventura anulando, o valor da palavra escrita?

O que está a acontecer em França com os "coletes amarelos" é revelador. Movemo-nos numa semi-consciência gratificante, algures entre o fascínio bruto dos materiais informativos e a inquietação sem nome que qualquer cidadão minimamente sensível não pode deixar de sentir.

Reencontro, assim, esses novos anjos da guarda do conhecimento que são os repórteres dos directos televisivos. Todos ou quase todos se expõem no meio de situações mais ou menos agitadas. Para eles e, em boa verdade, para todo o dispositivo televisivo, a ilustração imediata dessa agitação parece funcionar como prova transcendental de verdade - "estou no meio da confusão, logo existo".

Curiosamente, uma das informações mais frequentes que emerge nas palavras ditas por esses repórteres é a associação dos acontecimentos em que surgem inscritos às "redes sociais" (com aspas). Segundo eles, da convocação das manifestações às mensagens nelas explícitas ou implícitas, tudo pode ser conhecido, consultado e racionalizado através das "redes sociais" (sempre com aspas, insisto).

Que acontece, então? São os próprios repórteres, em grande plano, com as correrias e os gases lacrimogéneos em fundo, que nos convocam para uma cruel cegueira cognitiva. A saber: assombrados pelos poderes virtuais, já ninguém diz que o social (sem aspas) está ali mesmo, na agitação das ruas, onde eles se apresentam, microfone na mão e olhar fixo na câmara. Que tempo é este em que o jornalismo dominante deixou de aplicar o adjectivo "social" a não ser para consagrar a sua dimensão virtual?

Convenhamos que os acontecimentos são complexos e, por muitas razões, perturbantes - por mim, não posso deixar de reconhecer as minhas dificuldades, e muitas hesitações, para tentar articular qualquer leitura minimamente consistente sobre o que me é dado ver nas imagens das ruas de Paris.

Em qualquer caso, ficam os sinais dessa ilusão mediática em que somos convidados a considerar o mundo à nossa volta: deixámos de olhar os lugares do nosso viver como expressão primeira de um qualquer conceito de sociedade; passámos a privilegiar o conhecimento através da paraíso virtual das "redes sociais" (regressam as aspas) e transformámo-nos todos em repórteres de coisa nenhuma: viramos as costas ao que está a acontecer, olhamos para a câmara e desvalorizamos a relação com o turbilhão vivo da sociedade.

A tentação de evocar as imagens de Maio de 1968, também nas ruas de Paris, é grande - e pode ser completamente gratuita. Lembremos, por isso, o mais básico: aplicar o mantra segundo o qual "a história se repete" será tão só uma consolação para a nossa preguiça cognitiva. Apesar disso (aliás, precisamente por causa disso), vale a pena lembrar que a herança figurativa de há 50 anos envolve a consciência muito forte, e também muito desafiante, da complexidade do social.

Cerca de um ano antes de Maio, Jean-Luc Godard realizou um filme amargo e desencantado sobre o modo como a sociedade francesa estava a viver um tempo minado pelos valores do consumo e da publicidade, num processo de esvaziamento de todas as relações humanas (a começar pela sexualidade). Chamava-se Fim de Semana e, por boas razões, fixou-se na memória cinéfila como um objecto premonitório das convulsões de Maio de 1968. Nas suas legendas iniciais, definia-se como "um filme à deriva no cosmos", sugestão apocalíptica que começava na mais básica humildade artística: "um filme encontrado no ferro velho".

Continuamos, assim, a vogar entre as cósmicas promessas redentoras e os restos do nosso mal viver. Ao percorrermos as ruas de Paris através dos directos televisivos, as urgências da nossa vida social - da informação ao pensamento, da economia à política - emergem, intratáveis, para além da celebração quotidiana de links e polegares ao alto. O trabalho cognitivo que tudo isso exige está muito para além da imagem realista do repórter, arfante e sacrificial, heroicamente perturbado pelo gás lacrimogéneo da polícia. Não creio que necessitemos de heróis. Seja como for, precisamos de outro realismo.

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