Os clássicos andam por aí

Eis uma certeza cinéfila: nunca como nos nossos dias os espectadores interessados puderam desfrutar de tantas e tão variadas formas de acesso aos filmes a que chamamos clássicos. Estranhamente (ou não), tal certeza suscita uma desencantada observação: há cada vez menos espectadores a cultivar a memória do cinema. Em sentido muito literal: toda a gente sabe que, em 1966, a seleção portuguesa de futebol foi ao Mundial de Inglaterra e se classificou em terceiro lugar. Mas quem sabe também, por exemplo, que foi nesse mesmo ano que Ingmar Bergman realizou Persona, um dos títulos fundamentais da modernidade cinematográfica?

De nada adiantará adotarmos o moralismo futebolístico segundo o qual tudo se resolve com a atribuição de "culpas" (nem que seja para estigmatizar o guarda-redes que, coitado, viu a bola escorregar para o lado errado...). Em todo o caso, registemos o feliz paradoxo: por um lado, é verdade que as memórias cinéfilas não estão muito bem cotadas no imaginário dominado pelo espaço audiovisual; por outro lado, há distribuidores e exibidores que não abdicam de cultivar essas memórias, criando aos espectadores interessados a possibilidade de conhecer o cinema para além dos blockbusters que, ciclicamente, dominam todos os discursos promocionais (o que, entenda-se, não significa que não haja admi-ráveis blockbusters).

Por exemplo, a 12 de julho, por ocasião do centenário de Bergman, a Midas Filmes vai repor o sublime Saraband (2003) e ao longo dos meses de verão a Leopardo Filmes exibirá 16 títulos de Grandes Mestres do cinema francês, incluindo Max Ophüls, Jean Renoir e Sacha Guitry. Não serão casos únicos, até porque importa lembrar que o mercado do DVD se tem enriquecido com muitos títulos clássicos. Seja como for, não é por falta de oferta que os espectadores desconhecerão os fascinantes contrastes da história do cinema - os espectadores interessados, repito.

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