Foi você que disse Billy Wilder?

Em face da monótona colagem de anedotas, disfarçada de filme de aventuras mais ou menos policiais, que encontramos em Ocean's 8, talvez seja inevitável reconhecer que o filme irá dar entrada numa certa história "sociológica" destes nossos tempos conturbados. Daqui a muitas décadas, os investigadores talvez o venham a reconhecer (e celebrar) como exemplo de uma revalorização de temáticas femininas, indissociável de todo um processo de denúncia de desigualdades no interior do sistema de Hollywood. Será que tais investigadores formularão a mais básica questão de linguagem?

A saber: em que é que a figuração, por atrizes, de estereótipos de espetáculo tradicionalmente masculinos engrandece os valores femininos, eventualmente feministas? Convenhamos que o espaço mental para tal discussão quase não existe. Porque a simples chamada de atenção para a necessidade de pensar as linguagens que usamos (homens, mulheres ou extraterrestres) está condenada a atrair uma qualquer gritaria "social", denunciando aquilo que seria uma tentativa de branqueamento dos crimes de que são acusados Harvey Weinstein e alguns outros homens de Hollywood. Como? O drama é terrível.

Por um lado, Ocean's 8 nem sequer consegue retomar o humor de Steven Soderbergh na série iniciada com Ocean's 11 (2001), que desmontava com contagiante alegria muitos lugares-comuns machistas e até, pequeno detalhe, fabricando uma personagem de radiosa independência e inteligência interpretada por Julia Roberts. Por outro lado, na análise do frente-a-frente masculino-feminino, suas maravilhas e equívocos, um filme como Quanto mais Quente melhor (1959) supera todos os espetáculos politicamente esquálidos que hoje se fabricam. Em boa verdade, já estivemos mais longe de Billy Wilder ser inscrito em alguma lista negra...

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Opinião

"Orrrderrr!", começou a campanha europeia

Através do YouTube, faz grande sucesso entre nós um florilégio de gritos de John Bercow - vocês sabem, o speaker do Parlamento britânico. O grito dele é só um, em crescendo, "order, orrderr, ORRRDERRR!", e essa palavra quer dizer o que parece. Aquele "ordem!" proclamada pelo presidente da Câmara dos Comuns demonstra a falta de autoridade de toda a gente vulgar que hoje se senta no Parlamento que iniciou a democracia na velha Europa. Ora, se o grito de Bercow diz muito mais do que parece, o nosso interesse por ele, através do YouTube, diz mais de nós do que de Bercow. E, acreditem, tudo isto tem que ver com a nossa vida, até com a vidinha, e com o mundo em que vivemos.

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Marisa Matias

Mulheres

Nesta semana, um país inteiro juntou-se solidariamente às mulheres andaluzas. Falo do nosso país vizinho, como é óbvio. A chegada ao poder do partido Vox foi a legitimação de um discurso e de uma postura sexistas que julgávamos já eliminadas aqui por estes lados. Pois não é assim. Se durante algumas décadas assistimos ao reforço dos direitos das mulheres, nos últimos anos, a ascensão de forças políticas conservadoras e sexistas mostrou o quão rápida pode ser a destruição de direitos que levaram anos a construir. Na Hungria, as autoridades acham que o lugar da mulher é em casa, na Polónia não podem vestir de preto para não serem confundidas com gente que acha que tem direitos, em Espanha passaram a categoria de segunda na Andaluzia. Os exemplos podiam ser mais extensos, os tempos que vivemos são estes. Mas há sempre quem não desista, e onde se escreve retrocesso nas instituições, soma-se resistência nas ruas.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Ser ou não ser, eis a questão

De facto, desde o famoso "to be, or not to be" de Shakespeare que não se assistia a tão intenso dilema britânico. A confirmação do desacordo do Brexit e o chumbo da moção de censura a May agudizaram a imprevisibilidade do modo como o Reino Unido acordará desse mesmo desacordo. Uma das causas do Brexit terá sido certamente a corrente nacionalista, de base populista, com a qual a Europa em geral se debate. Mas não é a única causa. Como deverá a restante Europa reagir? Em primeiro lugar, com calma e serenidade. Em seguida, com muita atenção, pois invariavelmente o único ganho do erro resulta do que aprendemos com o mesmo. Imperativo é também que aprendamos a aprender em conjunto.