O bem e o mal segundo Fritz Lang

Será um efeito de (de)formação profissional, mas sempre que revejo um filme tão admirável como Desejo Humano (1954), de Fritz Lang, não posso deixar de pensar no velho preconceito que tende a menosprezar o cinema rodado em imagens a preto e branco. Bem sabemos que as raízes de tal preconceito estão, em grande parte, no triunfo de um certo novo-riquismo cultural há várias décadas favorecido pelo advento da televisão a cores. Em todo o caso, como é possível que se tenha instalado como coisa "natural" a ignorância de uma boa metade (ou mais) da história do cinema?

Desejo Humano está a passar nos canais TVCine, além do mais numa cópia que preserva a sofisticada direção fotográfica de Burnett Guffey, de alguma maneira refletindo as memórias "expressionistas" dos filmes que Lang dirigira na Alemanha (com inevitável destaque para Metropolis e M - Matou, respetivamente em 1927 e 1931).

Adaptando a um contexto americano o romance La Bête Humaine, de Émile Zola (que em 1938 estivera na base do clássico francês A Fera Humana, de Jean Renoir, com Jean Gabin), Desejo Humano tem chancela da Columbia Pictures, podendo exemplificar uma certa produção média com que, na altura, Hollywood ia cruzando as regras do filme negro com as nuances do melodrama.

Escusado será dizer que o trabalho de Lang é tudo menos mediano. E tanto mais quanto a precisão realista do detalhe coexiste com uma conceção abstrata da narrativa, desembocando numa desencantada parábola filosófica sobre a fragilidade do bem e a omnipresença do mal. Ou ainda: esta é uma história sobre as componentes malignas do desejo (o adjetivo "humano" do título é quase uma redundância), numa paisagem de paixões e traições em que o romantismo surge amaldiçoado pela mais descarnada pulsão de morte.

Simplificando (e simplificando muito...), digamos que esta começa por ser a história de um par interpretado por Gloria Grahame e Broderick Crawford: na sequência da perda do seu emprego nos comboios, movido pela cegueira do ciúme, ele mata um homem; o crime acontece num comboio em que também viaja um dos seus companheiros de trabalho, Glenn Ford - através do seu envolvimento com a mulher, ele será uma ambígua testemunha do ocorrido...

Provavelmente, nas mãos de um cineasta vulgar, este seria apenas um enigma mais ou menos policial sobre a exposição pública de um crime. Encenada por Lang, estamos perante uma tragédia íntima sobre a muito humana desumanidade do desejo, pontuada pelas infinitas nuances das imagens a preto e branco.

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