Além do corpo e do sexo

Revejo Linha Fantasma, de Paul Thomas Anderson, na recente edição em DVD. O retrato de Reynolds Woodcock, personagem (fictícia) da moda londrina em meados da década de 1950, parece-me ser, não apenas um dos grandes títulos da produção de 2017, mas um dos filmes maiores de todo o século XXI. Com esse detalhe, amargo e doce, que decorre do facto de a composição de Woodcock pelo genial Daniel Day-Lewis ter sido, em princípio, o derradeiro trabalho cinematográfico do ator inglês.

Não posso deixar de recordar o seu relativo apagamento no mercado cinematográfico. Não por qualquer expectativa em relação às condições de receção do filme (a noção segundo a qual o crítico é aquele que espera que os outros pensem o "mesmo" que ele é um disparate pueril que, confesso, com o passar dos anos, deixei de tentar sequer esclarecer). Em qualquer caso, em boa verdade, não estou só no reconhecimento dos méritos de Linha Fantasma.

O que não posso deixar de referir é o facto de, através de uma série de fatores mediáticos (com destaque para as campanhas promocionais), o filme de Paul Thomas Anderson ter sido "encaixado" numa espécie de sinopse compulsiva: uma história sobre os bastidores da moda... e com vestidos muito bonitos!

Não me interpretem mal. O guarda-roupa de Linha Fantasma é belíssimo, tendo valido ao seu criador, Mark Bridges, o único Óscar que o filme ganhou (sem esquecer que a Academia de Hollywood considerou que a marioneta de Churchill criada por Gary Oldman em A Hora Mais Negra possuía mais mérito do que a composição de Daniel Day-Lewis). O que discuto é de outra natureza. A saber: o facto de se confundir a realidade específica do cinema com a exibição de elementos mais ou menos decorativos e superficiais.

Se o guarda-roupa de Mark Bridges é tão admirável não é porque "reproduza" o visual que, na época, era possível descobrir na Vogue ou na Harper"s Bazaar. Entenda-se: são publicações de excelência. Mas os vestidos de Linha Fantasma valem, em última instância, pelo modo como, através deles, Woodcock descobre a sua mulher e musa, interpretada pela igualmente genial Vicky Krieps.

Dir-se-ia que, ao vesti-la, Woodcock não está a embele zá-la mas, num certo sentido, a inventá-la, expondo-a à crueldade suprema do amor. A saber: procurando, conscientemente ou não, que o seu corpo, pose e aura coincidam por inteiro com o seu desejo. Sexo? Sim, ma non troppo. Aliás, não digam a ninguém que vos estou a dar uma "chave" de leitura, mas a personagem de Vicky Krieps chama-se Alma.

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