Entre palavras e pintores

Só por inocência ou cinismo jornalístico se poderá julgar que o essencial de Cannes se joga na passadeira vermelha. Mesmo sem menosprezar o aparato mediático que faz parte do mundo do cinema (et pourquoi pas?...), importa reconhecer ao festival o renovado mérito de funcionar como montra das convulsões temáticas e filosóficas do cinema contemporâneo. Para quê continuar a filmar, de facto?

Digamos que o vencedor Nuri Bilge Ceylan nos ajuda a responder, quanto mais não seja porque o seu trabalho vem lembrar que a histeria em torno da imagem e dos seus "efeitos" (especiais ou não) pode e deve ser contrariada pelo ancestral valor da palavra: Winter Sleep é um daqueles filmes fulgurantes em que o vai-vem das falas implica os dramas e silêncios deste mundo e do outro (e tendo em conta as suas subtis ressonâncias religiosas, dizer "um outro mundo" não é ironia gratuita). Dirá o senso comum que, precisamente, são "apenas" personagens a falar... Convém acrescentar que, face à sua vertigem interior, a acumulação de explosões e ruídos do mais banal blockbuster corresponde ao tédio absoluto.

Três outros filmes fulgurantes completaram, por assim dizer, o impacto de Ceylan: Adieu au Langage, a lição de liberdade de Jean-Luc Godard; Maps to the Stars, com David Cronenberg a descarnar as ilusões do próprio ato de fazer cinema; enfim, Deux Jours, Une Nuit, mais uma paciente saga laboral dos irmãos Dardenne que demonstra também que ter uma estrela do "outro" cinema (Marion Cotillard) pode ser a mais bela das contradições. Fiquemo--nos por isso, com as palavras de Claude Monet, lembrando que importa "não pintar o que vemos, já que nada vemos, mas pintar o facto de não vermos". É Godard que o cita no seu filme e, podem crer, a herança do pintor está bem entregue.

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