Da competição ao mercado

A ofensiva Macron fratura a direita" - a manchete a seis colunas do jornal Le Monde podia ser o subtítulo promocional de um blockbuster de verão. Obviamente, o que está em jogo são as ondas de choque desencadeadas pela escolha de Édouard Philippe para chefiar o governo francês. Na prática, o Festival de Cannes, embora longe de estar secundarizado, não é, pelo menos para já, o tema forte no dia-a-dia da França. Aliás, convém lembrar que esta 70.ª edição (a decorrer até ao dia 28) avançou uma semana em relação às suas datas tradicionais, precisamente para evitar qualquer sobreposição ao calendário das eleições presidenciais.

Seja como for, o acontecimento envolve uma impressionante ordem de grandeza. Assim, além da seleção oficial (incluindo os 19 títulos que competem para a Palma de Ouro e a secção paralela Un Certain Regard), além da Quinzena dos Realizadores e da Semana da Crítica, o Mercado do Filme vai voltar a ser uma monumental feira de transações internacionais. Neste ano, nesse contexto, serão apresentados nada mais nada menos do que 3450 filmes.

Tendo em conta que os caminhos cruzados do cinema contemporâneo estão a marcar a atualidade (sobretudo por causa da crescente importância dos serviços de streaming), dir-se-ia que esta edição de Cannes pode ficar como sinal de um tempo em que, mais do que nunca, a identidade comercial dos filmes vive em convulsão. Com maior ou menor pessimismo, muitos dirão que tudo isso vai continuar a marcar também a identidade artística do cinema. Talvez que estejamos, afinal, a discutir a dimensão dos nossos ecrãs: a sala grande do palácio, com mais de dois mil lugares, continua a ser um símbolo perfeito dessa discussão - por alguma razão se chama Sala Lumière.

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