A Europa do nosso descontentamento

Perante as imagens de destruição da Notre-Dame de Paris, todos evocamos a grandeza histórica da nossa Europa. Será que isso basta para sermos realmente europeus?

Contemplo as imagens de destruição da Notre-Dame de Paris. Nos jornais e nas televisões, nos noticiários televisivos, o fogo acorda em nós a certeza amarga de uma impotência que importa superar, quanto mais não seja porque sabemos que o fazer da história é um infinito labor de construção e reconstrução, perdição e esperança.

Sinto-me, por isso, próximo de todos os discursos que apontam Notre-Dame como símbolo de uma entidade em que, subitamente, para além de todas as crises, todos nos reconhecemos. A saber: esse lugar geográfico e mítico a que damos o nome de Europa.

Ao mesmo tempo, a sensação de comunhão face à vulnerabilidade da Notre-Dame acorda em mim um outro sentimento que, mal ou bem, é também uma forma de pensamento. Que acontece (que está a acontecer) quando necessitamos de imagens trágicas como as que nos chegam de Paris para nos afirmarmos europeus?

Não quero encerrar a questão em generalizações automáticas, dessas que podem funcionar meia dúzia de dias nas manchetes televisivas para depois se desvanecerem numa agonia silenciosa de esquecimento. Ainda assim, pergunto-me se esta comunhão não envolve os valores (ou a falta deles) do mais corrente niilismo. Como se os contrastes, porventura as contradições, que todos sentimos - entre a utopia europeia e a sua vivência política - necessitassem de imagens cruas de destruição ou morte para a Europa reaparecer à tona do nosso oceano de diferenças.

Para nos ficarmos pelas imagens, precisamente, lembremos que vivemos numa Europa cujo espaço televisivo está todos os dias contaminado pela miséria conceptual e moral da reality TV e seus derivados. A formatação obscena dos comportamentos humanos promovida pela reality TV (com especial evidência para a coisificação sexual de homens e mulheres) transformou-se mesmo num elemento corrente de muitos modelos de comunicação televisiva - ou, como dirão os "especialistas", um formato.

Não vejo, não escuto os protagonistas da cena política a defender uma ideia primordial de Europa face a essa metódica irrisão dos laços humanos e da mais nobre noção de humanismo. Vejo, isso sim, e escuto-os, a dar conta da tristeza radical com que contemplam as imagens de Notre-Dame.

No meu recanto individual, partilho tal tristeza e acredito que os projetos de reconstrução se vão consumar, superando a destruição física e renovando o nosso amor por aquela igreja e o seu tocante simbolismo. Pergunto-me apenas se (e como) é possível termos mais Europa nos outros dias, aqueles em que o fogo não nos alerta para a ancestral excelência da nossa identidade coletiva.

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