A difícil arte de enganar o leitor através do conto por Marina Perezagua

A arte do conto não é para qualquer escritor, nem a publicação de livros de contos é para qualquer editora. Por isso, quando sai uma novidade o leitor fica curioso sobre o poder do escritor, mesmo que as editoras achem que não é um género importante a dar corda. Felizmente, a escritora espanhola Marina Perezagua não foi vítima do descaso, nem a Elsinore a deixou pelo sucesso em Portugal do seu único romance já traduzido para a língua portuguesa: Yoro.

Quem leu Yoro tem facilidade em perceber que a arte do conto não lhe seria difícil, afinal as múltiplas histórias que preenchem o romance garantiam essa eventual capacidade. No romance o protagonista H. infernizava a leitura devido à sua memória extensa e a uma entrega à morte para eliminar a cumplicidade nos eventos que quase eliminaram a cidade japonesa de Hiroxima da face da Terra.

As críticas no seu país natal foram deslumbrantes, chegando o El País a afirmar que "ler esta escritora é como assistir ao espetáculo do fim do mundo desde as quatro esquinas de um universo onde os níveis de perceção da realidade se esbatem". Garantia ainda que Marina Perezagua "possuía um domínio inesperado para descrever a beleza dolorosa que se esconde atrás de realidades insuspeitas" e destacava o capítulo do romance que se passava no jardim zoológico e a violação dos direitos dos animais enquanto exemplo de uma mesma situação nos homens.

Ora é perante essa capacidade narrativa de colocar o leitor como um observador da(s) realidade(s) que a escritora volta em A Tempestade, um conjunto de vinte e dois contos bem moldados sobre os vários aspetos do ser humano.

Basta ler o terceiro texto, Ele, para se compreender que a mão da escritora não se perde nas seis páginas do conto e que todos os parágrafos ali incluídos existem para formar a ilusão no leitor de que a está a ler mas não é dono do rumo da escrita. Ou seja, obriga o leitor a uma leitura ansiosa para saber o que se passa no conto e, ao aproximar-se do fim, demonstra como o ser humano se pode enganar até naquilo que melhor julga conhecer - o outro com quem convive. E fá-lo partindo de um corpo irreconhecível, onde os poucos centímetros que sobreviveram iguais garantem os passos dados numa narrativa tão enganadora quanto possível.

Se antes essa dúvida sobre o caminho a que Perezagua quer levar o leitor já existia nos contos A Tempestade, que dá título ao livro e contém uma intensa manipulação shakespeariana, ou no Transplante, uma maquiavélica forma de dar esperança através de orgasmos incompletos, a partir de Ele a fasquia fica tão alta que existe algum receio em continuar.

Não é que haja problema em continuar a viagem por estes contos, basta chegar ao Jana e Jano para perceber que a autora evita desiludir. Começa o conto com a solução do seu final mas não é tão evidente que se o compreenda. Diga-se que é mesmo necessário chegar bem perto do final para entender que o ciclo da vida pode ser em muito de acordo com a vontade das pessoas, mesmo que o cenário em que tudo se passa esteja bem distante da utopia em que o leitor poderia adivinhar o final.

Estamos perante uma contista de mão-cheia, pode dizer-se. Daquelas que confirmam até que ponto este género literário é, em meia dúzia de páginas, tão capaz de implodir o banal como um grande romance. Que nos engana os sentidos com a arte literária.

A Tempestade
Marina Perezagua
Editora Elsinore
237 páginas
PVP: 17,70 euros

Brand Story

Tui

Do mesmo autor

Mais em Opinião

Mais popular

  • no dn.pt
  • Opinião
Pub
Pub