João Céu e Silva

De Olham para o mundo na língua menos comum de Ana Cristina Leonardo

O Centro do Mundo é o título do primeiro romance de Ana Cristina Leonardo, que sucede a duas outras experiências literárias em livro, e que é editado na coleção Língua Comum da editora Quetzal. Ora de língua comum pouco tem este livro, o mesmo acontecendo a poucas outras exceções desta coleção onde figura uma reedição de O Que Diz Molero, de Dinis Machado, daí que se possa considerar este primeiro romance um dos mais incomuns da listagem na sua badana direita.

João Céu e Silva

Recruta forçada para João Reis

A ficção portuguesa das novas gerações de autores tem surpreendido pela ausência de temáticas que seduzam o leitor. Por norma, colocando a narrativa num ambiente nem sempre traduzível e com personagens que podem ser pertença de todo e nenhum lado. João Reis tem tentado alterar esse eclipse físico e fixa as suas personagens em terra firme, mesmo que procure cenários e pessoas diferentes que não o nacional. Foi o que fez em A Avó e a Neve Russa, lançado há pouco mais de um ano.

João Céu e Silva

Do princípio ao fim da "Fleet Street portuguesa" nas ruas do Bairro Alto

A surpresa está logo no início do livro, quando este O Bairro dos Jornais refere que o Bairro Alto "foi berço e morada de centenas de jornais". Tantos? Sim, é verdade, e contar as suas histórias foi o objetivo desta investigação de Paulo Martins, que o prefácio de Appio Sottomayor descreve em poucas páginas e de um modo que abre o apetite para a leitura imediata de 400 páginas em que é retratada a "Fleet Street portuguesa". O prefaciador elogia o volume e define-o como "uma espécie de Bíblia da Imprensa na sua pátria do Bairro Alto", ou seja, volta a abrir o apetite para a sua leitura.

João Céu e Silva

Até que ponto a história cabe num século de cinema por João Lopes

A página de apresentação do livro Cinema e história - aventuras narrativas do crítico de cinema João Lopes explica imediatamente ao que se vai nas restantes páginas, repletas de episódios exemplares sobre esta arte. Nada que os leitores do Diário de Notícias não pressintam ao pegar em mais um volume da coleção de ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, pois a sua presença nas páginas deste jornal enquanto crítico de cinema certifica que conhece bem a matéria-prima que trabalha. Mesmo que nessa página inicial o autor avise que o "cinema não deve ser encarado como máquina de "reprodução" ou "ilustração" de um saber já garantido pelos livros de história". Muito pelo contrário, afirma, "o cinema foi uma via de reconversão e recriação dos próprios modos de fazer história".

João Céu e Silva

Relato cinquentenário da contrarrevolução do Maio de 68 por Debray

O autor Régis Debray é claro na sua evocação publicada pela primeira vez dez anos passados sobre o Maio de 68 ao colocar na mais recente o subtítulo Uma Contrarrevolução Conseguida. Se esta versão tem como título Maio de 68, já a primeira versão do volume tinha como título Modesto contributo para os discursos e cerimónias oficiais do décimo aniversário, pois era publicado ainda muito a quente e após uma das maiores tempestades sociais do século XX francês.

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A história da Guerra Fria que não esquece Portugal por Odd Arne Westad

O historiador norueguês Odd Arne Westad tem escrito bastante sobre a Guerra Fria, a que segundo o autor possui um tom maior entre 1945 e 1989, e a edição do seu trabalho A Guerra Fria - A Criação de Um Mundo vem mesmo na hora em que tanto se fala de uma repetição daqueles tempos na atualidade. Westad caracteriza historicamente este período tão perigoso para a população da Terra e logo na introdução dá como exemplo o caso do seu país, onde uma minoria perfilhava os ideais da União Soviética e uma maioria achava que o fim do mundo pela via da guerra nuclear poderia acontecer na manhã seguinte.

João Céu e Silva

A descoberta do homem na obra de João Tordo sem se deixar manipular

A melancolia talvez seja o sentimento que em muito atravessa o novo romance de João Tordo, um dos escritores da última geração mais teimoso na produção literária. Que não se revela em cada novo livro com uma lombada média, antes espessa, de modo a conter quinhentas páginas. Saído de uma Trilogia dos Lugares sem Nome, onde a intemporalidade e uma ausência de marcos geográficos aliviavam a preocupação de perceber os contornos terrestres da obra, Tordo entra agora num mundo de duas histórias paralelas que se localizam em Portugal e no Japão. Este um destino que a dada altura sempre fascina os criadores e que se dissimulou tão bem nos escritos de Camilo Pessanha, o nosso oriental mais fatalista.

João Céu e Silva

Textos a propósito de tudo e de nada escritos por Galeano, Kraus e Mexia

A literatura tem destas coisas, o texto curto e incisivo. Por norma, surge a coberto do género conto, com princípio, meio e fim, bem balanceados, e o resultado, quando é bem feito, é devastador. No caso dos livros aqui referidos, um de Eduardo Galeano, outro de Karl Kraus e o novo de Pedro Mexia, o género não é o conto mas faz lembrar essa arte. O primeiro contempla o estilo da micronarrativa em O Livro dos Abraços. O segundo subintitula-se Sátiras Escolhidas. O terceiro, reúne crónicas publicadas. Pode-se juntar este trio sob o mesmo chapéu?

João Céu e Silva

Doze histórias verdadeiras para uma narrativa que parece uma invenção

A capa de um livro é muitas vezes escolhida num catálogo de imagens que terão algo a ver com o tema que está nas suas páginas, o que não é o caso de Memórias do Exílio, de Ana Aranha e Carlos Ademar, pois a fotografia documenta exatamente o salto de alguns portugueses para o estrangeiro durante os tempos do anterior regime. Explicação dada logo na capa, onde se explica que o objetivo é recordar as histórias das pessoas que abandonaram o país nos anos 60 e 70 e que queriam regressar a "um país livre".

João Céu e Silva

Entrevista a dois diabos da literatura por José Carlos de Vasconcelos

A história de uma entrevista pode ser um relato muito interessante, principalmente se os entrevistados forem pessoas com a estatura de António José Saraiva e Óscar Lopes. Foi essa "recordação" que o jornalista José Carlos de Vasconcelos foi buscar e que publicou agora na coleção Gradiva Breve, num volume que além da entrevista a ambos os intelectuais acrescenta a preparação do encontro e outros documentos importantes para se compreender os entrevistados e o cenário das suas vidas.

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O crime do Homem-Tigre para explicar o que é a literatura indonésia

O tom da nota introdutória de Homem-Tigre está um pouco desfasada daquele que se segue nas páginas do romance de Eka Kurniawan, não só porque revela o autor indonésio - que nasceu no dia em que este país ocupou Timor - de uma forma demasiado elogiosa, como tenta perspetivar o livro de um modo antinatural. É o problema do tom, uma questão que na prosa muito interessante de Kurniawan nunca existe. Ainda por cima, desde que não interfiram diretamente, posfácios (no caso prefácio) destes fazem muita falta em livros primeiros de autores de outras civilizações quando são traduzidos para a nossa língua.

João Céu e Silva

O melhor argumento para o policial e que Agatha Christie nunca utilizou

O livro tem um aviso no início que informa: "Talento para Matar não é uma obra autorizada por Agatha Christie Lda", o que pode ser visto como um bom sinal, pois não faz parte daquelas sequelas que escritores menos talentosos do que a Dama do Crime se têm encarregado de escrever, prolongando desse modo a vida literária da autora com balões de oxigénio frustrantes. Não, Talento para Matar é uma narrativa ao estilo do género policial mas com os condimentos próprios de quem sabe agarrar o leitor pelo colarinho e emocioná-lo na leitura, e o seu ator, Andrew Wilson, já publicou trabalhos suficientes para se conhecer a sua capacidade e arte - como é o caso de uma biografia da poeta Sylvia Plath e da escritora de policiais Patricia Highsmith.

João Céu e Silva

Uma nova vaga de escritoras recria episódios da nossa história

O título do mais recente romance de Isabel Rio Novo é tão trágico como a história que conta em A Febre das Almas Sensíveis. Melhor nome para o livro seria difícil de encontrar e melhor argumento também. Finalista de dois Prémio Leya, já tinha surpreendido com Rio do Esquecimento, e agora em duzentas páginas leva o leitor num deslizar constante pela sua prosa sedutora. Que, como revela o texto na contracapa, passa-se num Portugal da primeira metade do século XX e retrata um dos "males que assolam o país isolado e retrógrado". Não é um mal político, económico ou social, antes todos reunidos sob o chapéu temático da tuberculose.

João Céu e Silva

A difícil arte de enganar o leitor através do conto por Marina Perezagua

A arte do conto não é para qualquer escritor, nem a publicação de livros de contos é para qualquer editora. Por isso, quando sai uma novidade o leitor fica curioso sobre o poder do escritor, mesmo que as editoras achem que não é um género importante a dar corda. Felizmente, a escritora espanhola Marina Perezagua não foi vítima do descaso, nem a Elsinore a deixou pelo sucesso em Portugal do seu único romance já traduzido para a língua portuguesa: Yoro.

João Céu e Silva

O romance que se tornou incontornável: Um Gentleman em Moscovo

O romance começa com uma introdução que explica ao leitor ao que vai: o regresso de um aristocrata contestatário do regime que o czar impunha na Rússia através de um poema que escrevera em 1905 e incitava intelectualmente ao levantamento político. Passados uns anos e um exílio, o conde Aleksandr Ilitch Rostov regressa à Rússia pós-Revolução 1917 e hospeda-se no Hotel Metropol, de onde vislumbra as alterações políticas que o novo regime impõe. Fá-lo durante quatro anos, momento em que é chamado às autoridades para responder a um interrogatório sobre a estranheza da sua nova vida russa. O facto de ter bons padrinhos impede que lhe aconteça algo pior do que perder o direito a um quarto de enormes dimensões e passar a ficar hospedado num esconso. Deixa de poder passear pelos seus aposentos, de admirar os painéis decorativos e os lustres de grande beleza, mas tem outra vantagem, a pequenez do lugar em que os bolcheviques o depositaram permite-lhe ouvir os próprios pensamentos. Longe da louça de Limoges herdada da avó, bem como de todos os seus livros, resta-lhe um entre os muitos que possuíra. Finalmente, iria ter tempo para uma leitura sempre adiada, a de os Ensaios, de Michel de Montaigne. Logo que inicia o contacto com o volume descobre que melhor não há do que estes 107 ensaios sobre os temas Constância, Moderação, Solidão e Sono, e considera que Montaigne os escrevera "tendo em mente as noites de inverno". A partir desse momento, a observação interior do mundo vai mudar para o conde e, num impulso, enquanto sentado na cadeira do barbeiro, decide romper com as regras que pautam a conduta de um aristocrata e ordena que lhe rapem o cabelo todo. Tal como vai conviver com crianças, fazer novos amigos, usar um martelo, fazer truques de cartas e, entre muitas outras mudanças da sociedade, deixar de ser tratado por excelência.

João Céu e Silva

A extinção da raça humana ao jeito da onda da Nazaré

A ficção científica gostava de tratar do tema da extinção da raça humana, por norma devido a uma invasão extraterrestre. Ora, parece que estavam enganados esses profetas de um género literário que alertava para os perigos do futuro pois o que agora mais se aponta como o grande dizimador da melhor criação pós-Big Bang é o próprio homem e os frutos da sua inteligência. Isto no caso de ser capaz de criar e implantar no planeta a inteligência artificial.

João Céu e Silva