O mundo presta

"O mundo não presta, queremos outro." Esta é a posição de base da maioria dos comentadores. Artigos, discursos, programas eleitorais, conversas de café partem em geral desta hipótese radical, mesmo quando a não explicitam. A democracia não funciona, dêem-nos uma nova; o capitalismo é injusto, façam diferente; o país não melhora, mudem o sistema; os políticos e os empresários são incapazes, troquem-nos; o mundo não presta, queremos outro.

A maioria das pessoas que dizem isto são boas e respeitáveis, e dizem-no por excelentes razões, válidas e compreensíveis. Quem não conhece os terríveis problemas que nos rodeiam? Basta olhar à volta e saltam à vista os defeitos: o mundo tem muitos e graves motivos de censura e queixa. Para criticar, todos estamos prontos. Aliás, ultimamente as coisas pioraram bastante, e hoje o mundo está mesmo muito perigoso. Queremos outro.

O mal é evidente, mas há algo terrivelmente errado na abordagem. Porque este mundo que não presta, não é já o Antigo Regime, caduco e patético, mas o resultado de intensa busca da sociedade perfeita. Foi há mais de dois séculos que o homem iluminista "saiu da imaturidade" (cf. Kant (1784), O Que É o Iluminismo?) e quis mudar o mundo. Iluminismo, romantismo, liberalismo, socialismo, modernismo, pós-modernismo e tantos outros, ensinaram-nos a criticar a situação, prometeram um mundo melhor, mas cada vez há mais queixas. Hoje, com dois séculos e meio de crítica social e programas de progresso, o mundo não presta e queremos outro. O que correu mal?

A resposta está no único elemento comum a todos os movimentos sociais: o repúdio, o ódio por este mundo que não presta. Pior, apesar das boas intenções, há um terrível vício escondido nas ideologias: enorme arrogância latente, como a altivez de Kant ao apelidar de "imaturidade" todos os antecessores. Quem somos nós para criticar o mundo, o país, a democracia, a economia, os responsáveis, quanto mais condená-los? É preciso ser muito convencido para se assumir juiz da realidade, censor do sistema, árbitro da verdade. Foi por isso que, apesar do muito conseguido, nenhuma ideologia chegou a uma situação satisfatória. Sempre faltou o ingrediente fundamental.

Há muitas maneiras de mudar o mundo, mas só uma de o melhorar, e essa exige amá-lo. Só através do amor se aperfeiçoam realmente as realidades humanas. Todos fomos transformados por aquilo que nos aconteceu, mas só nos elevámos pelo amor que demos e recebemos. A primeira condição para melhorar o mundo é estimá-lo como ele é.

Mas como é possível amar isto que vivemos? Como se pode amar o mundo quando todas as terríveis críticas que ouvimos e fazemos são pungentemente reais? É mesmo verdade que, com frequência, o mundo não presta. Ora o verdadeiro amor, antes de mais, tem de ser realista.

Há boas razões para amar este mundo. Antes de mais pela enorme dívida de gratidão que todos temos para com ele, exactamente como é. De facto, tudo o que somos e temos devemo-lo ao meio em que nascemos, crescemos e ainda vivemos. Temos de dizer que esta democracia, tão deficiente, é aquela que nos garante há quase 45 anos os direitos de que gozamos; até o direito de a criticar. O capitalismo, tão injusto, alimenta quotidianamente a todos, ricos e pobres; o país tão medíocre é aquele que construímos, e os políticos e empresários incapazes são aqueles que evitam o caos. Se o mundo fosse melhor, seríamos diferentes do que somos, mas aquilo que conseguimos ser devemo-lo àquilo que ele é.

Além disso, este mundo, por muito mau que seja, tem uma grande vantagem em relação a todos os outros: existe e funciona, mesmo se mal, enquanto as alternativas que buscamos são em geral utopias ilusórias. A quase totalidade dos críticos faria muito pior se estivesse no comando. Aliás, na generalidade dos casos, nem sequer se dá ao trabalho de apresentar alternativas, limitando-se a gemer e criticar. Nos casos raros em que traz soluções, mais valia estar calada. Depois de sucessivas promessas e desilusões, de tantos "amanhãs que cantam" que se mostraram piores do que o original, não podemos cair de novo na ingenuidade de acreditar nas propostas ideológicas. Hoje, após 250 anos de revoluções, esta verdade é sangrentamente óbvia.

Amamos o mundo, não por ser bom mas por ser nosso. É o que temos, aquilo a quem tanto devemos. Afinal, todos aqueles que nós amamos nesta vida têm defeitos, que o nosso amor não ignora mas supera. Nós próprios queremos ser amados apesar das nossas muitas falhas. Se virmos as coisas assim, notamos que o mundo não é odiado porque não presta; só não presta porque o odiamos. Olhando de forma compreensiva para aquilo que nos rodeia, tudo muda. Notamos então como, apesar do mal que tem, o mundo já foi muito pior, podia ser muito pior e, apesar de tudo, tem coisas bastante boas. Até as suas fragilidades são, em certa medida, compreensíveis. O mal, como a beleza, está no olhar do observador.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG