Pós-verdade

Desde 2004 os Dicionários de Oxford elegem o que consideram ser a "palavra do ano", expressão mais marcante da época corrente. Já foram escolhidos termos como "sudoku" (2005), "pegada de carbono" (2007), "credit crunch" (2008) ou "selfie" (2013). Neste ano a eleição foi assumidamente difícil, mas no dia 15 surgiu o anúncio da vencedora: "pós-verdade" ("post-truth").

Segundo a comunicação oficial, trata-se de um "adjectivo definido como "relacionado com, ou denotando circunstâncias nas quais os factos objectivos são menos influentes na formação da opinião pública que apelos a emoções e convicções pessoais"" (en.oxforddictionaries.com/ word-of-the-year). Na análise que acompanha o galardão, a autoria da palavra é atribuída ao dramaturgo americano de origem sérvia Steve Tesich (1942--1996), num artigo de 1992 no semanário The Nation sobre a guerra do Golfo e o escândalo Irão--Contra, ficando depois consagrada no livro The Post-Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life (2004), do também americano Ralph Keyes.

O volume de Keyes mostra como a paixão do nosso tempo pela desonestidade é bastante antiga e profunda. Mas não é a esse nível que esta escolha se coloca. Os linguistas britânicos não criticam tanto a influência da ficção na era da informação, mas algo muito mais concreto. De facto, apesar dos já respeitáveis 24 anos de carreira dessa palavra, a razão da escolha vem da explosão do seu uso desde Junho, quase exclusivamente gerada por análises mediáticas ao referendo do brexit e eleição de Donald Trump. Estes dois acontecimentos parecem marcar a plenitude da pós--verdade. A escolha traz, portanto, uma forte carga de amargura que faltava nas eleitas de anos anteriores, mais neutras e descritivas. Sente-se a raiva impotente dos intelectuais de Oxford contra o delírio dos eleitores que se deixaram enganar pelas ilusões vendidas por políticos como Nigel Farage ou o bilionário dos hotéis.

Mas o termo em questão tem uma riqueza semântica que se perde se for simplesmente identificado com "mentira" ou "demagogia". A "pós-verdade" é mais do que simplesmente um engano. Trata-se indiscutivelmente de um oportunismo, que ludibria gravemente os cidadãos; mas ele surge alavancando uma realidade que a política tradicional não conseguia enfrentar. Esse é o facto que a retórica dos extremistas ultrapassou, passando para lá da verdade, mas que as visões tradicionais não conseguiam atingir. Pode dizer-se que a vitória do embuste só funcionou porque David Cameron e Hillary Clinton se situavam na "pré-verdade".

As pessoas estão zangadas. Não sabem bem com quem, nem sequer sabem bem porquê, e ignoram o que exactamente se poderia fazer para as apaziguar. Mas não têm dúvida de que estão zangadas e anseiam por alguém que expresse essa fúria. Essa é a ferida que os vermes sempre utilizaram para se alimentar, como tantos populistas desde Pisístrato em Atenas ou Catilina em Roma.

O mal é que, após a vitória da "pós-verdade", caímos sempre na triste realidade, que os demagogos enfrentam com tanta dificuldade quanto os vencidos. Farage já viu a sua plataforma derrocar e Theresa May ainda não conseguiu apresentar um plano coerente para a Grã-Bretanha pós-UE. Trump ainda demorará algum tempo a revelar a sua incapacidade, e até pode conseguir alguns sucessos temporários e aparentes, como Alexis Tsipras ou António Costa têm conseguido nos dramas grego e português. Infelizmente nenhum deles tem a fórmula mágica para resolver a zanga que capitalizaram nas suas campanhas.

As pessoas estão zangadas. Não sabem bem com quem, nem sequer sabem bem porquê, e ignoram o que exactamente se poderia fazer para as apaziguar. Mas não têm dúvida de que estão zangadas e anseiam por alguém que expresse essa fúria. Essa é a ferida que os vermes sempre utilizaram para se alimentar, como tantos populistas desde Pisístrato em Atenas ou Catilina em Roma

Porque o problema central é sempre que estas plataformas pós-verdadeiras se baseiam exclusivamente num elemento negativo, o repúdio da situação. Foi zurzindo os líderes do momento que esses movimentos se afirmaram. Claro que os seus lemas são sempre positivos, como a "Alternativa de Confiança" do PS de 2015, "Take Back Control" dos brexiters ou "Make America Great Again" de Trump. Mas é precisamente aí que passam para lá da verdade. A "alternativa de confiança" de Costa foi aliar-se à extrema-esquerda antieuropeia para continuar a austeridade que prometera inverter; o "controlo" dos britânicos é permanecerem determinados pelas políticas europeias, que deixaram de influenciar; a América ficará mais pequena se Trump construir o muro, expulsar os imigrantes, abandonar os aliados.

A realidade sempre se impõe, e o reinado da pós-verdade é sempre curto. Esperemos que o que fique seja algo expresso por outra das palavras candidatas neste ano: "coulrophobia", um medo extremo ou irracional de palhaços.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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