Bilionários populares

Porque é que as pessoas votam em bilionários? Donald Trump é apenas o caso mais recente de uma tradição que inclui, só nos últimos anos, Silvio Berlusconi na Itália, Petro Poroshenko na Ucrânia, Thaksin Shinawatra na Tailândia, Sebastián Piñera no Chile, Najib Mikati e Rafic Hariri no Líbano, Andrej Babiš na República Checa, Bidzina Ivanishvili na Geórgia e vários outros. Dado que a política é continuamente assombrada por suspeita de relações entre ministros e negócios, como podem os eleitores escolher empresários para políticos? A resposta é simples e inclui dois elementos.

Em praticamente todos estes casos o sucesso fica a dever-se, antes de mais, à rejeição dos líderes tradicionais pelos cidadãos. Como os políticos profissionais não prestam, é preciso ir buscar a outros lados. Aí já tivemos as opções mais variadas, de actores de cinema (como Ronald Reagan nos EUA, Arnold Schwarzenegger na Califórnia e Joseph Estrada nas Filipinas) a lutadores (Jesse Ventura no Minnesota), e também, em maior número, empresários, que incluem, além das referidas, as candidaturas de Michael Bloomberg em Nova Iorque, Serge Dassault na França, Frank Stronach na Áustria, Clive Palmer na Austrália, Zac Goldsmith no Reino Unido, Manuel Villar nas Filipinas, Vijay Mallya e Nandan Nilekani na Índia e Mikhail Prokhorov, Andrey Guryev e Sergei Pugachev na Rússia.

É preciso começar por dizer que escolher um não político para um cargo político não é nada boa ideia. Na generalidade das outras funções, da medicina à culinária, ninguém acharia um inexperiente melhor do que um profissional. Aliás, na própria gestão de empresas seria tolice dizer que um principiante faria melhores negócios do que os conhecedores. A política é uma tarefa tão ou mais especializada do que as demais. É preciso ter contactos, criar apoios, fazer equilíbrios, gerir imagens, empolgar apoiantes, conhecer o sistema, orientar grupos, dominar problemas, conceber soluções, aplicar estratégias, ultrapassar obstáculos, recuperar derrotas. Apesar disso, na política é costume pensar que qualquer um pode ser melhor do que os que andam aí muitos anos. Apesar de a história mostrar repetidamente o contrário.

A tese básica do populismo, hoje de novo em expansão, é precisamente essa: como os políticos são incompetentes e corruptos, votem em mim que eu sou do povo. E o povo, que nunca confiaria no vizinho do lado para governar o país, porque o conhece bem, acredita que aquele demagogo, que conhece mal, será um bom dirigente, só por dizer que é tão próximo e inexperiente como o vizinho. Entre os populistas que chegam ao poder, os melhores acabam por ser os que violam as promessas e se transformam em políticos como os outros, como Ramsay MacDonald ou Alexis Tsipras. O desastre acontece quando, fiel às declarações, o eleito subverte as instituições, agride os poderes, desequilibra a sociedade. Com raras excepções, a história não tem sido favorável a estas tentativas, de Hitler a Chávez, passando por Lenine e Mao.

No caso particular dos empresários existe ainda um elemento adicional. Subentendida vegeta a ideia de que o sucesso comercial é bom augúrio para a gestão da causa pública. Quem acumulou uma fortuna dá garantias de também enriquecer o país. Isso aplica-se até ao caso de Trump, que já faliu seis vezes e pode ser considerado mais um delapidador da riqueza paterna do que um gestor bem-sucedido. O mito do bilionário amigo do povo é demasiado poderoso para ser esquecido. Mesmo se o simples facto de ele ser bilionário prova a enorme distância que o separa desse povo.

Aqui, porém, a história tem sido ainda mais desanimadora. Mesmo olhando apenas para a parte económica da política, que naturalmente foi central na plataforma eleitoral do bilionário, os resultados são desastrosos. Berlusconi, Shinawatra e Poroshenko presidiram a paralisias ou derrocadas produtivas dos seus países. Trump prepara-se para causar mais danos à economia americana e mundial do que a grande maioria dos seus antecessores. A flagrante ignorância que revela relativamente às noções básicas de economia só é ultrapassada pela arrogância que extrai da sua lamentável carreira empresarial.

A razão desta recorrência de fiascos não é difícil de entender, desde que se abandone o mito do bilionário popular. A gestão de uma fortuna, ou mesmo de uma empresa, é muito diferente da gestão nacional. Vai uma enorme distância de um balanço contabilístico ao Orçamento do Estado. Mas o gestor não percebe essa distância, achando que conselho de administração e Conselho de Ministros são parecidos. Terá a triste surpresa de descobrir que os aliados políticos não são assalariados.

Pior, até aquilo em que é bom (quando é) prejudica o ex-gestor. Ele sabe todos os truques da classe empresarial, que geralmente despreza como antigos concorrentes. O facto de os conhecer bem dificilmente é garantia de sucesso como regulador, legislador, tributário e árbitro nacional. Talvez o próximo desastre Trump possa amortecer esta ilusão durante algumas décadas.

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