A ideologia blockchain

O grande problema da terceira revolução civilizacional da Idade Contemporânea é a falta de uma ideologia orientadora. Parece que, finalmente, surge uma possibilidade, fornecida pela tecnologia.

Vivemos o momento de maior transformação da história. Na técnica, na economia e na cultura, as novidades pululam todos os dias, nascendo a cada passo outras ainda mais revolucionárias. Isso, se assegura grandes melhorias, gera também turbulência, conflitos e vítimas, que repudiam a mudança. Esta é a terceira vez que tal aceleração acontece nos últimos 250 anos, depois da revolução industrial do século XVIII e da revolução capitalista do século XIX. Em todos estes casos, a consequência do descontentamento tem sido a criação de movimentos sociais que derrubam o regime anterior e criam uma nova realidade.

Desta vez, porém, existe uma grande diferença: as forças radicais que ultimamente têm subido por todo o Ocidente, perante o descontentamento pelos partidos tradicionais, ainda se guiam pelas doutrinas da revolução anterior. Elas são liberais, socialistas, esquerdistas, etc., mas essas teses há muito que perderam a frescura e a credibilidade originais já convencendo poucos. É impossível hoje defender credivelmente capitalismo selvagem, sociedade sem classes ou ditadura do proletariado. Por isso, a discussão nos debates actuais limita-se a repudiar a situação, sem nunca chegar realmente a apresentar verdadeiras alternativas inéditas.

Quando, na segunda metade do século XVIII, as sociedades se lançaram no derrube do "antigo regime", sabiam aquilo que queriam implantar, graças à orientação de doutrinas bem definidas, de autores como Locke, Montesquieu, Rousseau. O mesmo aconteceu nos finais do século XIX, onde a crítica ao capitalismo dominante era feito com proposta de novos modelos de sociedade nascidos das ideias de Stuart Mill, Marx e Mussolini, entre outros.

Hoje, sobretudo após a crise de 2008, a sensação de fim de regime é pela terceira vez palpável. Muitos se sentem ameaçados pelas intensas mudanças da sociedade, mais uma vez simultaneamente empolgantes e assustadoras. As culpas, como nas acelerações anteriores, são assacadas aos dirigentes tradicionais, surgindo novas caras e forças. O que lhes falta, desta vez, são ideias e modelos inovadores. Tsipras, Trump e Macron não têm nada de verdadeiramente diferente para dizer. Quando planeiam, limitam-se a retomar as propostas antigas, às vezes com embrulho digital para fingir novidade. Este é, sem dúvida, o principal drama cultural da actualidade.

Agora a tecnologia parece ter, finalmente, trazido uma contribuição inesperada e diferente. De facto, entre as muitas e radicais mudanças digitais, uma tem ambições doutrinárias. O registo blockchain, originalmente concebido para apoiar as criptomoedas, está crescentemente a adquirir vida própria, prometendo subverter a sociedade como a conhecemos. A ideia-base é a substituição de uma autoridade (banco, notário, bolsa, registo civil, administração, governo) por uma alternativa descentralizada, segura e incorruptível. Aquilo que a bitcoin pretende fazer ao sistema financeiro a blockchain estende à generalidade dos mecanismos sociais. Isso revolucionará todas as formas de poder concentrado, seja dos governos ou burocratas aos novos gigantes da informação, Facebook, Google, Netflix, YouTube ou Amazon. Agora a versão 2.0 da blockchain, que além de registar também executa operações por smart contracts, é ainda mais transformadora.

A descoberta de uma doutrina original dentro desta intensa transformação é, em si mesma, excelente. Neste estádio inicial, pelo menos duas lições são de referir. A primeira é que este terceiro movimento actua num ponto diferente dos dois anteriores. No século XVIII as ideologias dirigiam-se contra a tradição, fosse ela religiosa, cultural ou política. No século XIX o alvo era o mercado, peça central do dominante sistema capitalista. Desta vez o eixo atingido é directamente a autoridade, a governação, dando credibilidade e operacionalidade às intuições anarquistas, aquelas que nunca conseguiram a sua revolução.

Mais importante é a grande lição dos anteriores tumultos: o extremismo, mesmo se compreensível face à injustiça, é sempre mau. Os vícios da tradição, mercado e autoridade merecem total e inflexível repúdio, mas a sociedade precisa desses instrumentos para funcionar, desde que num equilíbrio saudável. As revoluções do século XVIII trouxeram-nos igualdade social, democracia e liberdade, que são conquistas preciosas, mas sem eliminar as classes sociais, tradições e religiões. Os movimentos do século XIX criaram sindicatos, segurança social e regulação económica, sem acabar com empresas, iniciativa produtiva e liberdade comercial. Agora a tecnologia blockchain pode libertar-nos das ditaduras de burocratas, multinacionais e gigantes da internet, desde que mantenha instituições sociais e sistemas democráticos.

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