Picoly, a figura da semana

No dia 27 de março de 1966, indiferentes ao escândalo do roubo da Taça Jules Rimet, que deveria ser entregue em julho no Estádio de Wembley ao capitão da seleção campeã mundial de futebol, o eletricista David Corbett e o seu cão Pickles passeavam descontraídos por Beulah Hill, jardim no sul de Londres. De repente, Pickles farejou qualquer coisa embrulhada em papel de jornal, esticou a coleira e latiu: encontrara, antes da Scotland Yard, o cobiçadíssimo troféu, sete dias após o roubo.

Às custas, entre outras, da seleção portuguesa de Eusébio e companhia, seria ao capitão inglês Bobby Moore que caberia a honra meses depois de levantar a taça descoberta por Pickles. E o cão foi, claro, convidado para o banquete de celebração, com rainha e tudo, já com a medalha de prata da National Canine Defence League orgulhosamente ao pescoço.

Nove anos antes, Laika dera um pequeno passo para uma cadela mas um grande salto para a humanidade só por entrar no Sputnik 2. E, sem a contribuição dos seus cães, provavelmente Pavlov não passaria hoje de um anónimo cientista russo.

O pastor-alemão Rin Tin Tin e o collie Pal (o ator, macho, que interpretou Lassie no cinema) fizeram sucesso décadas a fio em Hollywood. Nunca ganharam um Oscar? Harrison Ford, John Malkovich, Greta Garbo ou Deborah Kerr também não.

E um dos portugueses mais próximo do poder global, talvez mais ainda do que o papa João XXI ou do que o secretário-geral da ONU António Guterres, foi Bo, o cão-de-água que privou com a família Obama na Casa Branca.

Serve esta introdução para dizer que não é nenhum desprestígio, num país com 206 milhões de ilustres habitantes, que a figura da semana tenha sido um cão. Picoly, além de trending topic (assunto do momento na rede Twitter) à escala global na semana passada, fez disparar em 3260% as buscas por Marcela Temer no Google.

O motivo é simples: Marcela, o seu filho Michelzinho, uma agente do Gabinete de Segurança Institucional e Picoly, o jack russell terrier do casal presidencial brasileiro, circulavam pelo Palácio do Alvorada quando o cachorro caiu nas águas do lago Paranoá. Aflita, Marcela pediu ajuda à agente. Ao ver que ela não reagia, a própria primeira-dama atirou-se ao lago, vestida, para salvar Picoly. A notícia chegou ao público porque a agente acabou afastada das suas funções ao expor Marcela a uma situação de risco.

O Brasil fez então jus à fama de "fábrica de memes": "Boa Marcela! Cumpriu o seu dever mas agora afoga o Temer no Paranoá", disse um internauta. "Cachorro do casal Temer tenta o suicídio", afirmou outra. "Despediu a funcionária porquê? Queria que ela fizesse boca a boca no cachorro?"; "Bela, recatada, do lar e esclavagista, eis a primeira-dama que é o orgulho da direita"; "Esse presidente é tão incompetente que nem o cachorro dele sabe nadar"; "E esse país está tão na m... que nem os paparazzi arrumam uma foto do momento pra gente rir"; e por aí adiante, ao ponto de transformar Picoly na figura da semana no Brasil.

Apesar da forte concorrência humana: desde logo do herói Tatuagem, como era conhecido Ricardo Pinheiro, o homem que salvou crianças e idosos de um incêndio num prédio no centro de São Paulo e acabou por morrer porque o edifício desabou na exata hora em que ia ser recolhido pelos bombeiros.

Ou Dario Messer, o operador financeiro, ainda foragido, por trás de um esquema investigado pela Operação Câmbio Desligo, fase da Lava-Jato com potencial para multiplicar por 30 o impacto das anteriores.

Ou Joaquim Barbosa, o juiz que prometia agitar as eleições de outubro mas desistiu de concorrer.

Ou Marcello Siciliano, o vereador carioca com nome sugestivo que a polícia acredita tenha mandado matar a ex-colega Marielle Franco.

Ou, claro, o eterno Lula, que, feliz por receber na cela uma esteira elétrica, prometeu sair da prisão ainda mais bonito do que entrou.

Ou, mesmo, o inevitável Jair Bolsonaro, o candidato de extrema-direita que é o rei dos trending topics e prometeu mais uma vez esta semana dar uma arma a todos os brasileiros de bem para combater os bandidos vagabundos. Uma espécie de "quem tem medo compra um cão" em versão boçal do representante do Brasil que ladra mas não morde.

em São Paulo

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