Para pior

"Ele não muda".

O desabafo, a propósito já se sabe de quem, tem sido usado e abusado no Brasil nos últimos tempos.

"Podemos acusá-lo de tudo, menos de não cumprir o que prometeu", diz-se também.

"Coerente ele é", ouve-se.

Na verdade, depois de uns meses às escuras no Planalto, em que até admitiu falta de vocação para o cargo, o presidente da República ganhou confiança nos últimos tempos ao ponto de começar a traduzir agora, por atos e por palavras, tudo o que foi dizendo durante a sua medíocre carreira parlamentar.

Apanhado só da última semana:

Declarou que quer os criminosos "a morrer como baratas nas ruas", desdenhou da morte de 62 seres humanos numa prisão em Manaus e despediu um cientista que havia cometido o crime de divulgar dados negativos sobre o desmatamento da Amazónia.

Para se vingar de declarações do bastonário dos advogados que lhe desagradaram, afirmou que o pai dele, comprovadamente assassinado nos porões da ditadura militar, fora afinal morto pelo grupo oposicionista a que pertencia. Não apresentou nenhuma prova da sua conclusão, além do seu livro de cabeceira, as memórias do torturador Brilhante Ustra. Na sequência, trocou quatro membros da Comissão de Mortos e Desaparecidos da Ditadura Militar por dois militantes do seu partido de extrema-direita (!) e por dois militares (!!) adeptos, como ele, de Ustra.

Enfim, uma semana como outra qualquer.

Afinal, "podemos acusa-lo de tudo, menos de não cumprir o que prometeu".

No fim das contas, "coerente ele é".

E, realmente, "ele não muda".

Mas será que não?

Em 2013, fez um discurso inflamado contra o Mais Médicos, protocolo entre Brasil e Cuba. O então deputado criticava o programa por prever a entrada no país de clínicos cubanos e de todos os seus dependentes. "Podemos ter 70 mil cubanos aqui", sublinhou, para acusar em seguida o governo do PT de na verdade pretender "importar agentes socialistas".

Um mês depois de eleito decidiu encerrar o programa sob o argumento de que "não respeitava os direitos humanos" por, entre outras razões, "impedir os médicos de trazer as suas famílias".

Bolsonaro, que namora a ideia de uma guerra com a Venezuela de Nicolás Maduro, mal os EUA estalem o dedo e assobiem na sua direção, via em 1999, numa entrevista à revista Veja, "Hugo Chávez como uma esperança para a América Latina".

Atacou Michel Temer, seu antecessor, por causa da proposta de reforma do sistema previdenciário. Causava especial aflição ao parlamentar a adoção de uma idade mínima de 65 anos para os homens se aposentarem - "é uma porcaria", dizia. O maior feito do Governo Bolsonaro, segundo a maioria dos observadores, foi a aprovação no mês passado da Nova Previdência, com idade mínima de 65 anos para os homens se aposentarem.

O presidente que deu luz verde à venda das estatais Eletrobrás e Correios nos últimos meses, chamava de "barbaridade" a política de privatizações de Fernando Henrique Cardoso. A solução, defendeu ele na televisão, era o fuzilamento de FHC.

Mas privatizar empresas públicas e reformar a previdência são, no fundo, vértices da nova política que Bolsonaro prometeu implantar. Outro vértice prometido foi o fim do "toma lá, dá cá", isto é, a prática do governo oferecer dinheiro a deputados para aprovação de medidas do seu interesse. No entanto, para fazer passar a tal reforma da previdência, o Planalto disponibilizou o equivalente a quase mil milhões de euros a parlamentares.

Na carreira de deputado, subiu ao palanque mais de uma vez a exigir que a ascensão patrimonial dos filhos de Lula fosse investigada. Como presidente, nomeou o filho Eduardo embaixador em Washington, aceitou as pressões do filho Carlos para demitir, por enquanto, dois ministros, e defende com unhas e dentes Flávio das acusações de lavagem de dinheiro e organização criminosa. Cedeu até um helicóptero da força aérea pago pelos contribuintes para transportar dez parentes a um casamento.

Não, ele não é sequer coerente.

E não, ele não cumpre o que prometeu.

Mas sim, ele muda, desde que seja para pior.

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