Os brasis não se falam

Nos metros quadrados mais caros do Brasil, aonde o blockbuster de Hollywood e os iPhones de última geração chegam na hora, os seus habitantes têm uma agenda própria de preocupações: o gigantismo de um estado corrupto que só atrapalha os negócios com leis laborais redigidas há 70 anos ainda sob a presidência de Getúlio Vargas; o emaranhado de impostos federais, estaduais e municipais inexplicáveis; a falta de segurança que não permite nem uma ida descansada em família ao restaurante, ao cinema ou ao futebol; e o preço crescente do dólar que limita os banhos de civilização regulares em viagens aos Estados Unidos ou à Europa.

E a culpa de quase todos os problemas é atribuída, pela maioria, ao Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula e Dilma, que no seu governo de 13 anos, entre Mensalões e Petrolões, manteve legislação trabalhista arcaica, não fez reformas fiscais, descurou o policiamento e aumentou a dívida pública através de custosos e ociosos programas sociais para potenciar a preguiça de vagabundos que não querem trabalhar.

Por sua vez, no sertão e nos rincões profundos brasileiros, ao PT, a Lula e a Dilma são creditados planos, como o Bolsa Família, que retirou 16 milhões de pessoas da pobreza extrema; o Minha Casa, Minha Vida, que deu apartamento próprio a 4,6 milhões de cidadãos; o Mais Médicos, cujo impacto atinge 46 milhões de pacientes; o Crescer, que beneficia pequeníssimos negócios de quatro milhões de microempresários; o Pronatec, que patrocinou cursos técnicos a 5 milhões de estudantes; ou o Caminho, que transporta de graça para a escola 1 milhão de crianças.

Para os que moram lá, quem tem na sua agenda de preocupações o tamanho do estado e o câmbio do dólar são riquinhos mimados que nunca trabalharam de verdade.

Mas, apesar de o Brasil ser o mais desigual de entre 128 países analisados pela ONU em março do ano passado, não é só de contrastes sociais que aqui se trata - afinal, a desigualdade é um problema global, com dados cada vez mais alarmantes a invadirem os noticiários da Europa à Ásia, da Oceânia à África, e não apenas os do gigante da América do Sul.

O que torna a oitava economia do mundo um caso particular é a falta de comunicação: noutra pesquisa, desta vez do Instituto Ipsos Mori, constatou-se que de entre 38 países estudados, o Brasil é o segundo, atrás apenas da África do Sul, com menos noção da própria realidade.

Entre os dois brasis, o dos metros quadrados caros e o dos rincões profundos, não há, sequer, contacto: parecem espécies biológicas diferentes.

Essa alienação, de um lado e de outro, tem consequência sociais, políticas e eleitorais: os primeiros acham que a corrupção brasileira nasceu após a ascensão de Lula ao poder - esquecendo que ela sempre existiu, só estava alegremente debaixo do tapete até aos governos PT criarem os mecanismos para a combater de que Sergio Moro hoje faz uso. E acreditam que os eleitores do velho sindicalista são-no só por cedência ignorante ao populismo assistencialista de esquerda.

Os segundos, habituados por séculos a serem enganados pelas elites, em forma de coronéis, militares ou patrões, veem na condenação do antigo presidente apenas um complô entre a grande media, os mercados, os monopólios, os magistrados - uma visão, necessariamente, curta e enviesada, como a dos adeptos de futebol que se queixam do árbitro quando perdem.

Uns preferem morrer a ver Lula, ou alguém apoiado por ele, voltar ao Palácio do Planalto em outubro, sem reconhecer os benefícios da sua gestão; outros matam para o ver, a ele ou a um lulista, subir a rampa, sem admitir os erros do seu consulado. E as duas metades, cada uma na sua bolha, cada qual no seu gueto, não se comunicam, não se falam, não dialogam. Não se conhecem. E esse costuma ser o ponto de partida para períodos, longos, de intolerância e até de violência.

Em São Paulo

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