O Brasil que desaba

Ainda a notícia da morte de 11 assaltantes de banco num tiroteio com a polícia de elite nos arredores de São Paulo corria e já grupos de WhatsApp partilhavam fotos dos cadáveres, com poças de sangue a jorrar da boca e fraturas expostas de pernas, braços e bacias. Nos comentários, os bolsonaristas puro-sangue - no duplo sentido - faziam piadas enquanto profanavam os cadáveres.

Os mesmos "cidadãos de bem" que se calaram depois de outro banho de sangue, o que matou o músico, pai e marido Evaldo Rosa e feriu mais duas pessoas, nenhuma delas com cadastro criminal, na zona oeste do Rio de Janeiro, após 83 tiros - não foi um, nem dois - disparados "por engano" pelo exército. "Um incidente", resumiu o presidente Bolsonaro, uma semana depois, quando não conseguiu mais fugir ao tema.

O chefe dos deputados do partido do poder, entretanto, num dia foi notícia por ter aparecido numa votação de uma comissão no Congresso de coldre à cintura - "mas sem arma!", gritou, quando confrontado com o uso do adereço - e no outro por achar que a cura para a criminalidade adolescente é pôr os miúdos a trabalhar a partir dos 12 anos.

Ainda no Congresso, mais ou menos no mesmo local e à mesma hora, a multimilionária filha, neta e bisneta de governadores e latifundiários do Mato Grosso, Tereza Cristina, ministra da Agricultura, dizia a uma plateia de senadores que, no país onde mais de 50 milhões de pessoas (uma Espanha) vivem abaixo do limiar de pobreza, "não há muita fome porque há muita manga".

Casa legislativa, os deputados à assembleia do Rio de Janeiro embutiam às pressas num projeto de lei a possibilidade de eles mesmos poderem andar armados por onde quiserem e bem entenderem, porque, afinal, como os profanadores de cadáveres, os militares autores dos 83 disparos, o deputado defensor do trabalho infantil e a ministra da manga, são todos "cidadãos de bem".

"Bom, mas e com o Lula e com a Dilma era melhor?", perguntam, ou respondem, os "cidadãos de bem" sempre que confrontados com os mergulhos consecutivos na Idade Média que o país vai experimentando.

Lula fez, de facto, muita asneira. Um exemplo avulso? Em nome de lucros eleitorais abraçou a face mais sombria dos evangélicos, Edir Macedo, e concedeu-lhe passaporte diplomático. O que fez Bolsonaro? Renovou o passaporte do bispo, que havia sido suspenso durante o governo de Michel Temer, e ainda aumentou em 659% os lucros em publicidade estatal da TV que faz parte do esquema da IURD.

Dilma, entretanto, deixou o país numa recessão histórica por usar métodos retrógrados na condução da economia. Um exemplo avulso? Em nome de lucros eleitorais, tentou maquilhar os números da inflação e agradar ao povo intervindo nos preços da luz e do gás. O que fez Bolsonaro? Telefonou, sem o ministro da Economia saber, ao presidente da Petrobras e travou o aumento do diesel, causando perda do dia para a noite de sete mil milhões de euros no valor de mercado da empresa.

Como se não bastassem os dramas provocados, o Brasil ainda é fustigado por tragédias naturais. Ou nem tão naturais. O desabamento do prédio que matou, até agora, 15 pessoas na comunidade da Muzema, zona oeste do Rio, foi acelerado pelos temporais que se abateram na cidade, mas é sobretudo fruto da construção sem fiscalização do poder público porque as milícias que controlam a região, poder público paralelo, expulsam esses fiscais.

O chefe da milícia em causa, Ronald Pereira, foi preso por ligações ao Escritório do Crime, o grupo que a polícia acredita estar por trás da morte da vereadora Marielle Franco, a que pertence o autor dos disparos que a matou, Ronnie Lessa, e que é dirigida pelo foragido Adriano da Nóbrega, cuja família está ou esteve a assessorar Flávio Bolsonaro, filho mais velho do presidente. Por alguma razão, em Rio das Pedras, região vizinha de Muzema onde opera o Escritório do Crime, Flávio foi o mais votado em 74 das 76 secções de voto.

Não, com Lula e Dilma não era pior.

Exclusivos

Premium

Nuno Severiano Teixeira

"O soldado Milhões é um símbolo da capacidade heroica" portuguesa

Entrevista a Nuno Severiano Teixeira, professor catedrático na Universidade Nova de Lisboa e antigo ministro da Defesa. O autor de The Portuguese at War, um livro agora editado exclusivamente em Inglaterra a pedido da Sussex Academic Press, fala da história militar do país e da evolução tremenda das nossas Forças Armadas desde a chegada da democracia.

Premium

Ferreira Fernandes

A angústia de um espanhol no momento do referendo

Fernando Rosales, vou começar a inventá-lo, nasceu em Saucelle, numa margem do rio Douro. Se fosse na outra, seria português. Assim, é espanhol. Prossigo a invenção, verdadeira: era garoto, os seus pais levaram-no de férias a Barcelona. Foram ver um parque. Logo ficou com um daqueles nomes que se transformam no trenó Rosebud das nossas vidas: Parque Güell. Na verdade, saberia só mais tarde, era Barcelona, toda ela.