Marambaia

Durante o verão de 2018, Michel Temer devolveu, 33 anos depois, o poder aos militares. Não o federal, ainda, mas o de um dos estados mais relevantes do país, o do Rio de Janeiro.

E enquanto entregava o controlo da segurança fluminense (o gentílico do estado) e carioca (o gentílico da cidade homónima) ao general Walter de Souza Braga Netto, numa medida criticada por especialistas de todos os vértices ideológicos pela falta de planeamento e tom eleitoreiro, anunciou ainda a criação de mais um ministério, o da Segurança Pública, nada menos do que o 29.º do seu governo que se prometia enxuto no tão distante ano - 2016 - da sua formação.

Por falar em ministérios, o presidente da República que no seu primeiro governo se esqueceu de incluir mulheres e negros aproveitou também o verão para finalmente demitir a sua ministra dos Direitos Humanos, a mulher e negra Luislinda Valois, notada em dois anos de consulado por se ter dito distinguida pela ONU com uma honraria que jamais existiu e por, ao pedir a acumulação ilegal do salário de ministra com o de juíza reformada, ter comparado a sua situação à de uma escrava.

Cristiane Brasil, entretanto, filha do delator do mensalão Roberto Jefferson e escolhida por Temer ainda em 2017 para ocupar a pasta do Trabalho, acabou nos últimos dias impedida definitivamente de chefiar o ministério que nunca chegou a assumir por, entre outros escândalos, acumular ações de funcionários seus em, imagine-se, tribunais do trabalho.

O nome completo do ministério há quase três meses sem ministro é Ministério do Trabalho e da Previdência Social, o que nos leva a novo momento alto do verão de Temer: após dois anos a prometer aos mercados, seus principais patrocinadores, a reforma da previdência, acabou por desistir dela, aproveitando o desvio de atenção provocado pelo vendaval de notícias sobre o Rio, por não conseguir arregimentar os votos necessários no Congresso para a fazer aprovar - e um dos argumentos para o derrube de Dilma era, no tal longínquo 2016, a capacidade de Temer para dobrar parlamentares.

Até nos detalhes, o verão de Temer foi interessante: acusado de satanismo ao longo da vida, comparado a mordomo de filme de terror por antigos rivais e ilustrado no último Carnaval da Marquês de Sapucaí como vampiro, não é que o presidente da República, para júbilo dos humoristas, usou uma imagem de Darth Vader, o vilão do Star Wars, num penso (band-aid no Brasil) no anelar ferido da mão esquerda enquanto anunciava a intervenção no Rio?

No meio de tanta emoção, o presidente decidiu, e bem, usar o escaldante verão tropical para uns dias de férias. Escolheu os 42 quilómetros de praias administradas pela marinha na Restinga da Marambaia, no litoral fluminense. Durante o repouso, como aconselhou o colunista do jornal Folha de S. Paulo Elio Gaspari, Temer poderia ter aproveitado para refletir sobre a Marambaia e, por extensão, sobre, o país que preside.

No século XIX, a Marambaia pertencia ao brasileiro mais rico de todos os tempos, corrigidas as inflações, o comendador José Joaquim de Sousa Breves, filho de açoriano e considerado o primeiro Rei do Café do país. Reza a lenda que das gavetas das escrivaninhas e dos aparadores das suas luxuosas fazendas brotavam maços e maços de notas do Tesouro Nacional que a criadagem não resistia a de vez em quando meter ao bolso.

Nas senzalas em redor, porém, viviam na miséria mais de seis mil escravos contrabandeados por Breves, uma das vozes mais ferozes e impulsivas contra a abolição. Uns serviam para colher o café, outros para servir o café ao patrão.

Era um Brasil, felizmente, de outros tempos aquele da Marambaia do século XIX, onde quase século e meio depois o presidente da República aterrou, acompanhado da mulher, Marcela, e do filho, Michelzinho. E, segundo O Globo, de cozinheira, garçons, arrumadeira, copeira, camareira e babá num total de 38 funcionários. Enfim, o mínimo indispensável.

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