Eleita com três tiros

Para se chegar a deputado em Portugal basta um período de militância intensa numa sebosa juventude partidária, um currículo académico de preferência engordado por um reitor amigo, um padrinho político peso-pesado e uma paróquia suficientemente ingénua onde pescar votos.

No Brasil, não. Como o país é 92 vezes maior e 20 vezes mais populoso do que Portugal, o caminho para a Praça dos Três Poderes, em Brasília, é infinitamente mais comprido do que a via para São Bento, em Lisboa. Não faltam candidatos sebosos ou paróquias ingénuas, mas isso não é o bastante para se atingir eleitores, às vezes a viverem isolados em rincões sertão afora, para quem a maioria dos candidatos, até os que concorrem ao Planalto, são absolutos desconhecidos.

É necessária, para começar, uma máquina de propaganda poderosa - e onerosa, ou não fosse o mote do escândalo do petrolão a montanha de dinheiro desviada ilegalmente de empresas públicas e privadas para olear milhares de campanhas eleitorais simultâneas.

Como para 2018 os tesoureiros dos partidos - os que restam soltos - se sentem sob o cutelo da Lava-Jato, as forças políticas apostam numa solução comprovadamente eficaz e muito mais barata: celebridades. Um famoso, por andar pela TV, não precisa gastar tanto numa campanha para se tornar conhecido nos tais rincões sertão afora.

Tiririca, que conquistou fama nacional como palhaço e bateu recordes de votação em 2010, é o exemplo mais óbvio. O craque Romário, que se elegeu deputado, primeiro, e senador, depois, outro. O deputado federal Jean Wyllys só chegou a Brasília - onde, por acaso, é um dos melhores parlamentares, segundo os rankings especializados - porque participou num Big Brother antes de se arriscar na política.

Mas no Brasil pós-Lava-Jato, onde ninguém acredita em ninguém e a palavra de ordem é "moralidade", com tudo o que de perigoso ela carrega, o perfil de famoso consumido pelo eleitor mudou. É menos um Tiririca ou um Romário, porque a economia e a sociedade não estão para palhaçadas e futebóis, e mais um capitão Bolsonaro, o deputado que se tornou notado por querer dar pistolas a toda a gente, fuzilar corruptos e outras ideias do tipo.

Na senda dele, mais de 80 militares, de todas as patentes, apresentar-se-ão a eleições, inundando os boletins de voto de general isto e sargento aquilo. Se serão ou não eleitos depende, lá está, de se tornarem mais ou menos célebres. A cabo Katia Sastre, desde sábado 12 de maio, é.

Nesse dia, mães e alunos, entre os quais ela e uma das filhas, reuniam-se à porta de um colégio na periferia de São Paulo, num evento escolar, quando surgiu um ladrão, de arma em punho apontada para o grupo. Imediatamente, a cabo Katia, mesmo de folga, tirou a pistola da mala e matou Elivelton Neves Moreira, de 21 anos, com três tiros. A cena foi filmada por uma câmara de segurança e rapidamente difundida por jornais e redes sociais.

Na segunda-feira seguinte, Márcio França, governador de São Paulo em campanha eleitoral, homenageou-a publicamente com discurso e ramo de flores. Dias depois, o jornal Folha de S. Paulo entrevistou-a: Katia, 42 anos, confessou-se fã de Tiririca, "parece honesto", e de Bolsonaro, "ótima pessoa", além de cristã evangélica praticante. "A pastora do culto que frequento disse que eu ia ficar conhecida, escreva aí que tudo isto aconteceu pela mão de Deus", pediu.

Paradigma do perfil de candidato-celebridade versão 2018, a cabo Katia vai concorrer a uma das 513 vagas de deputada federal pelo Partido da República (PR), liderado pelo veterano Valdemar Costa Neto, preso no mensalão, implicado no petrolão e responsável por em 2010 descobrir o potencial eleitoral do também do PR palhaço Tiririca. Neto acredita que ela vale meio milhão de votos, suficiente para ser eleita por larga margem.

Segundo os especialistas em segurança ouvidos pela imprensa, naquele dia 12 de maio a última celebridade do Brasil agiu de acordo com as regras protocolares. E terá prevenido uma tragédia pior. Mas, ainda assim, para chegar a Brasília apresenta no currículo três tiros e nada mais. Antes viesse de uma sebosa juventude partidária.

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