Efeito cobra

Qual das três hipóteses seguintes é a melhor escolha para líder mundial? Um candidato que consumiu drogas na juventude, bebe um quarto de uma garrafa de uísque todas as noites, levanta-se ao meio--dia e já foi despedido do cargo? Um outro que se relaciona com gente desonesta, guia-se pelo horóscopo, é viciado em martínis e cigarros e já traiu a mulher duas vezes? Ou um condecorado herói de guerra que jamais foi adúltero, é vegetariano, não fuma e, no máximo, bebe uma cerveja socialmente?

Para quem não conhece o despretensioso chiste, muito comum nos Estados Unidos, o primeiro candidato é Winston Churchill, o segundo Franklin Delano Roosevelt e o terceiro Adolf Hitler. Usa-se para provar que uma escolha óbvia à partida pode revelar-se um erro fatal no fim das contas.

Aquilo a que também se costuma chamar de efeito cobra, a propósito da política aparentemente inatacável do império britânico na Índia de oferecer recompensas a quem matasse uma serpente venenosa, dado o surto do bicho por Deli e arredores. Com grandes quantidades de cobras mortas, a decisão à partida foi excelente; mas revelou-se no fim das contas um fracasso porque os locais passaram a investir na reprodução do animal como fonte de receita. Quando o governo inglês se apercebeu, deixou de pagar a recompensa e os criadores soltaram as cobras, já sem valor, pelas ruas de Deli, multiplicando o surto inicial.

Michel Temer - porque em matéria decisões erradas acabamos sempre por chegar nele - fez uma escolha ideal há uns meses, mas sofreu nos últimos dias o seu efeito cobra.

Criticado por ter constituído um governo só de homens brancos e desejoso de agradar ao PSDB, o mais importante de todos os parceiros da coligação que o sustenta, escolheu Luislinda Valois, mulher, negra e do PSDB, como ministra dos Direitos Humanos. Temer, pensou o próprio, com a sua "ministra três em um" calava o aliado de circunstância e o diabo dos esquerdistas que teimavam em achar o seu executivo másculo e caucasiano pouco representativo do Brasil - mas muito representativo da bolha em que o velho cacique se moveu toda a vida entre São Paulo e Brasília.

Pois Valois, jurista baiana, revelou ainda mais uma vantagem nos primeiros Conselhos de Ministros: entrava muda e saía calada das reuniões, sem criar ondas nem fazer exigências - mesmo quando metade do Brasil se indignou com a portaria governamental que facilita o trabalho escravo, a ministra, que é dos Direitos Humanos, ficou serena e confortável entre a metade que não fez um ruído.

Foi também silenciosamente, pelo menos até alguém enviar a informação para o jornal O Estado de S. Paulo, que Luislinda requereu à Casa Civil, num processo de mais de 200 páginas, o direito a acumular o salário de ministra com a reforma de juíza desembargadora. Em vez dos cerca de 9000 euros mensais, com direito a moradia, a veículo com motorista particular e a viagens em aviões da Força Aérea inerentes ao cargo governamental, queria aqueles benefícios todos mais o equivalente a 18 mil euros. O que a lei do teto do funcionalismo público não permite por limitar a perto de 9500 euros o salário máximo de um servidor do Estado.

Nas 200 páginas de alegações, argumentava que quem exerce a função de ministra gasta balúrdios em maquilhagem e deve vestir-se com dignidade. Para rematar em grande estilo: "Quem trabalha sem receber é escravo." Nada mal, para uma ministra que pactuara semanas antes com a decisão de não considerar análogo à escravatura um emprego de sol a sol, sem direito a água canalizada e vivendo no curral em troca de um prato de comida insalubre.

Numa democracia madura, Luislinda ter-se-ia demitido. Num governo como o de Temer, em que o próprio chefe é acusado pelo Ministério Público de organização criminosa, formação de quadrilha, corrupção passiva e obstrução à justiça, ela será apenas mais um cadáver político, calado e mudo nos Conselhos de Ministros, à espera de passar à história com as eleições de outubro de 2018.

Em São Paulo

Do mesmo autor

Mais em Opinião

Brand Story

Tui

Mais popular

  • no dn.pt
  • Opinião
Pub
Pub