A vírgula

Começa a funcionar a seleção natural nas eleições presidenciais brasileiras: primeiro, tombaram as candidaturas dos representantes do "novo na política", como o apresentador de televisão Luciano Huck e o ex-presidente do Supremo Joaquim Barbosa, e na semana passada caiu a do exemplo do "caduco na política", o atual presidente Michel Temer.

A Temer, que foi preterido no seu partido, o MDB, em favor do seu ex--ministro das finanças Henrique Meirelles, resta lutar depois de Outubro por um cargo na administração pública que lhe permita manter o foro privilegiado e assim ir adiando a sua mais do que provável prisão por corrupção passiva, lavagem de dinheiro, organização criminosa e obstrução de justiça em quatro processos.

O presidente é acusado de favorecer empresas do setor portuário, em maio de 2017, de ter jantado no Palácio do Jaburu com executivos da Odebrecht para reunir cerca de 2,5 milhões de euros em doações ilícitas de campanha em 2014, de liderar, por anos, uma quadrilha do seu partido suspeita de desviar o equivalente a 150 milhões em subornos e, o mais mediático de todos os casos, de ser o destinatário daquela mala de dinheiro entregue ao seu assessor especial numa pizaria por um executivo da JBS no ano passado.

Essa mala surgiu na sequência de um encontro clandestino nas caves do Jaburu com Joesley Batista, dono da JBS, onde o primeiro pergunta por meias palavras se deve continuar a pagar mensalidades a um eventual delator preso e obtém como resposta presidencial um, entretanto celebrizado, "tem de manter isso, viu".

Essa infame gravação, somada ao facto de Temer não ter sido eleito para o cargo que ocupa, de ter conspirado pela surdina a queda da antecessora, de lhe faltar simpatia natural e de o seu governo ser composto por corruptos de longo cadastro desaguou numa impopularidade perene, imutável, definitiva.

Mas o "marqueteiro" oficial também não ajudou: Elsinho Mouco, assim se chama ele, é descrito num perfil na revista Época como um rico herdeiro, que ostentou bólides e namoros com subcelebridades ao longo da vida, até descobrir, já na maturidade dos 50, vocação para o marketing político.

Conheceu Temer, pelas portas e travessas dos meios que ambos frequentam, e encarregou-se logo de rascunhar o design do novo governo nos primeiros dias pós-impeachment: optou pelas palavras "Ordem e Progresso" sobre um círculo azul cheio de estrelas. Ou seja, pela bandeira do Brasil, símbolo com provetos 129 anos. E ainda escolheu mal porque usou a versão antiga, a mesma dos militares, dando o mote para o governo de desordem e retrocesso que aí vinha.

Mais tarde, pensou em associar, em vídeo, o consulado de Dilma Rousseff aos 7-1 da Alemanha ao Brasil na Copa, ideia morta à nascença por aviso de processo dos advogados de Luiz Filipe Scolari, selecionador à época do desaire.

Noutro rasgo, tentou contrapor ao "Fora Temer!", a palavra de ordem mais repetida por milhões de brasileiros em manifestações ao longo de dois anos, um infrutífero "Bora Temer!"

Quando o presidente nos finais de 2017 ameaçou candidatar-se teve, talvez, a sua magnum opus: sugeriu a frase do próprio Temer no encontro clandestino com o corrupto Joesley "tem de manter isso, viu" como slogan para a campanha de recondução.

Rejeitada a ideia de Mouco e abandonada a candidatura de Temer, o "marqueteiro" concentrou as suas baterias criativas na celebração dos dois anos de governo, festejados no princípio deste mês. Precisava de uma frase que sublinhasse o cariz reformista do presidente, por um lado, e os avanços na economia, por outro. Atrás do palanque onde Temer, solene, discursava, surgiu o resultado, desastroso, em forma de cartaz: "O Brasil voltou, 20 anos em dois". O país, sob Temer, retrocedeu duas décadas?, perguntaram-se, confusos, os brasileiros.

Consta que, no limite da paciência, o presidente rasgou o cartaz logo após o discurso, enquanto Mouco repetia "a vírgula, está lá uma vírgula" para se defender.

Eis, talvez por lapso freudiano, o perfeito resumo do governo Temer, segundo o seu marqueteiro oficial: uma vírgula na história do Brasil. Entre sujeito e predicado.

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