A Globo e 2018

Tudo o que eu quero é disputar a eleição com alguém com o logótipo da Globo na testa, dizia Lula da Silva a propósito da eventualidade de Luciano Huck, uma das estrelas da emissora, concorrer às presidenciais de 2018. Huck acabou por desistir, mas a frase do presidente do Brasil de 2003 a 2010 e pré-candidato às próximas eleições revela a importância da líder de audiências no país.

Uma importância que se mede em números: é a segunda televisão comercial do mundo em faturação, atrás apenas da norte-americana ABC, mais de 150 milhões de brasileiros veem-na diariamente através de 120 filiais espalhadas da selva amazónica à selva de cimento de São Paulo e tem mais jornalistas do que Portugal.

Mas, sobretudo, em influência: se o recorde da novela Roque Santeiro, com 98% de share no capítulo final, já não é batível na era moderna dos netflix e afins, ainda assim Roberto Carlos voltou, 30 anos depois, a vender um milhão de cópias por ter um tema seu cantado na novela Salve Jorge e o sistema elétrico nacional teve de reforçar a carga para evitar um apagão nos últimos episódios de Avenida Brasil. No futebol, porque decidiu que às quartas à noite há jogo depois da novela, todo o subcontinente sul-americano tem de adiar partidas para as 21.45, ou mais tarde, de modo a satisfazer a sua sagrada grelha. Ainda no futebol, um corrupto ex-presidente do organismo que tutela o desporto denunciado por toda a imprensa disse que só se preocuparia com os rumores sobre as suas ladroagens quando eles passassem no Jornal Nacional, principal noticiário do canal - no dia seguinte a sair uma reportagem sobre si no JN, fugiu para Miami.

O poder da Globo leva-a a ser amada e odiada em doses iguais, como acontece com todos os impérios: o império mundial dos nossos dias, o dos EUA, é seguido com devoção pelos amantes do Halloween, das Black Fridays, do Thanksgiving, do Superbowl e a sua cultura, consumida à exaustão, entrenha-se nas nossas vidas; no entanto, toda a gente ama odiar a América e o seu puritanismo hipócrita, a sua obsessão por armas, o seu materialismo levado ao limite e, claro, por se achar dona do mundo. Assim, como a Globo se acha - e se calhar é - a dona do Brasil.

Do ponto de vista político, esse ódio à Globo sempre partiu mais das esquerdas. Porque a emissora terá sido conivente com a ditadura militar e - caso específico - porque já em democracia admitiu ter editado, em 1989, um debate entre Lula e Collor de Mello considerado decisivo para a eleição do segundo. Mas, apesar de politicamente conservadora - afinal, sendo líder em toda a linha do Brasil tal como ele é compreende-se que queira conservá-lo tal como ele está -, nos costumes opta pelo liberalismo - a sua ficção prega, convictamente, a tolerância a todas as minorias.

E é aqui que, como assinala Eliane Brum, colunista do El País Brasil, reside uma perceção diferente, e recente, da Globo: apelidada de golpista, por Lula, Dilma Rousseff e os viúvos do consulado do PT em geral, passou a ser chamada também de comunista, pela cada vez mais decisiva e furiosa extrema-direita política e, sobretudo, religiosa.

Convém notar, a propósito, duas coisas: que essa extrema-direita, além de decisiva e furiosa, é ignorante e coloca debaixo do guarda-chuva do conceito de comunismo causas, como o casamento gay (proibido nos países comunistas, a propósito), e crimes, como a pedofilia; e que a cadeia de TV vice-líder no país é a Record, propriedade de Edir Macedo, papa da IURD.

Por isso, Jair Bolsonaro, o candidato de extrema-direita que ganhou a simpatia da maioria dos radicais evangélicos brasileiros e está em segundo nas sondagens, diz que se for eleito cortará verba publicitária da Globo e ataca-a sempre que pode. Assim, como o líder em todas elas, Lula, que tudo o que queria era disputar a eleição de 2018 com alguém com o logótipo da emissora na testa.

Mesmo sem Huck, a emissora está portanto destinada a aproximar-se de um terceiro polo nas eleições de 2018. Um terceiro polo que terá o logótipo da emissora na testa, ainda que discretamente.

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