Impeachment, disse Guedes

O bolsonarismo vai ficar na história como uma piada de mau gosto. Mas, até lá, por sermos seus contemporâneos, temos de fazer o esforço de o levar a sério.

O fenómeno assentou em cinco pilares.

Primeiro: uma reação do conservadorismo cristão, sobretudo evangélico, à associação involuntária entre dois polos do poder no Brasil, a TV Globo e os governos de esquerda, que por mais que se digladiem no campo económico, têm agendas semelhantes - pró-diversidade, pró-causas LGBT - no campo dos costumes.

Notório preconceituoso, Bolsonaro, que em pré-campanha até se deixou batizar por um pastor no rio Jordão, em Israel, foi visto como o candidato ideal anti-Globo e antiesquerda, pró-obscurantismo e pró-trevas.

Segundo: a constatação do movimento internacional de extrema-direita que tanto produz peixe grande, Donald Trump, como peixe miúdo, André Ventura, de que a oitava economia do mundo era uma oportunidade. Já havia guia, o ex-astrólogo terraplanista Olavo de Carvalho, e um mar de ignorantes crédulos para o seguir. Faltava um político.

Descobriu Bolsonaro e dotou-o, como antes a Trump e no futuro a Ventura, dos mais modernos métodos imorais de campanha, nomeadamente produção de fake news em massa e perfis falsos via aplicativos de mensagens e redes sociais.

Terceiro: o susto de parte da população perante as 51 558 mortes violentas em 2018, ano da eleição. Mesmo que esse número seja cerca de metade de óbitos por covid-19 registados em cinco meses de 2019, os assustados exigem lei de talião.

Com histórico de defensor do lóbi dos militares, das polícias e das armas e discurso "bandido bom é bandido morto", Bolsonaro foi a escolha natural dos ávidos de sangue.

Quarto: um contra-ataque das elites económicas que atribuem ao Estado brasileiro - que tem, de facto, burocracia e corrupção, mas ainda assim o melhor (único) remédio para o combate à desigualdade num país há 500 anos pornograficamente desigual - todos os males do Brasil e por isso sonham em esvaziá-lo, diminuí-lo, vendê-lo.

"Mau militar" - segundo o presidente general Ernesto Geisel -, deputado preguiçoso - aprovou dois projetos em 28 anos no parlamento - e sem jamais ter gerado um tostão no setor privado, Bolsonaro converteu-se ao liberalismo económico às pressas sob a bênção de Paulo Guedes, um Chicago Boy.

Quinto: àquelas elites económicas juntou-se, entretanto, uma classe média que, mesmo não passando de um grupo de remediados, adora partilhar as dores dos ricos. Essa classe média, que jamais se mobilizou contra a fome e detestou partilhar os mesmos lugares com os 40 milhões de novos consumidores gerados pelo Governo de Lula, viu na Operação Lava-Jato a justificativa para ir para a rua "lutar contra a corrupção". E associou "corrupção" a "PT" e "esquerda" como se o flagelo não fosse comum a todos os partidos, a todas as ideologias, a todos os tempos, a todos os espaços no Brasil.

Como Bolsonaro era o caminho mais curto para ascender na política, Sérgio Moro fez tudo para que ele ganhasse. Mas, já ministro, viu rebentar um escândalo de desvio dos salários dos assessores do filho do primogénito, Flávio Bolsonaro, que se estende aos gabinetes de todos os (muitos) membros do clã mergulhados na política. Um esquema milionário que, segundo o Ministério Público, serviu até para comprar dezenas de imóveis em cash. Do que a famiglia seria capaz se tivesse acesso aos cofres da Petrobras?

Um ano e meio depois, os três primeiros pilares do bolsonarismo, apesar da incompetência do presidente, ou talvez por causa dela, seguem mais ou menos leais ao "projeto".

Mas os dois últimos desertam: os lavajatistas logo depois de Moro virar costas ao Governo; os neoliberais já a seguir.

Oito dos secretários da equipa económica demitiram-se em 2020 - por causa da aliança de Bolsonaro com o centrão, grupo de deputados clientelistas que troca apoio político aos presidentes por nacos gordos do Orçamento de Estado, e da necessidade do Governo de promover políticas públicas, copiadas das do PT, para ter o voto dos mais pobres em 2022.

A ponto de esta frase - "é uma debandada [...] é o caminho para o impeachment" - ter saído não da boca da oposição mas da do próprio Guedes nesta terça-feira.

Correspondente em São Paulo

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