Efeito Mayer

William Waack, 65 anos, formado em Jornalismo pela Universidade de São Paulo e em Ciência Política, Sociologia e Comunicação pela Universidade de Mainz, na Alemanha, publicou quatro livros e ganhou dois dos mais prestigiados prémios do Brasil por reportagens na primeira Guerra do Golfo, em 1991, e sobre a Intentona Comunista brasileira, de 1935.

Antes de chegar à TV Globo, em 1996, e se tornar em 2005 o âncora do Jornal da Globo, último dos quatro grandes espaços noticiosos do dia da campeã de audiências da televisão brasileira, passou por algumas das mais prestigiadas redações do país - jornal O Estado de S. Paulo, revista Veja, Jornal do Brasil e TV Cultura, entre outras.

Correspondente internacional da estação em Londres, na Alemanha, na Rússia e no Médio Oriente, fez reportagens sobre a queda do Muro de Berlim, a desintegração da União Soviética e a Revolução no Irão. Cobriu ainda a reeleição de George W. Bush, nos Estados Unidos, assim como a eleição surpreendente de Donald Trump, em 2016.

Na véspera dessa última eleição, a 7 de novembro, antes de entrar ao vivo de Washington, com a Casa Branca ao fundo como mandam as regras, foi atrapalhado pela buzina insistente de um automóvel no trânsito. Em off exclamou: "Tá buzinando porquê, seu merda do cacete? Não vou nem falar porque eu sei quem é." E, virando-se para o constrangido convidado ao lado, prosseguiu: "Eu sei quem é, é um preto, isso é coisa de preto."

Diego Pereira, operador de vídeo da TV Globo e negro, esperou um ano exato - até 7 de novembro de 2017 - para fazer circular nas redes o vídeo do comentário racista do pivô. No dia seguinte, a Globo comunicou que Waack, um dos jornalistas mais respeitados do país, seria afastado do jornal que apresentava há 12 anos. No dia 22 de dezembro, acabaria por demiti-lo, após 21 anos de casa.

"A TV Globo reafirma seu repúdio ao racismo em todas as suas formas e manifestações", lia-se na nota, assinada pelo diretor-geral de jornalismo da emissora, Ali Kamel, a quem não restava alternativa, sobretudo depois de em 2006 ter escrito o controverso livro Não Somos Racistas, onde criticava a política de quotas para negros nas universidades.

O caso de Waack resume uma parte do 2017 brasileiro: a posição da Globo, cuja importância no Brasil é incomensurável, pela defesa das minorias e pelo combate ao preconceito, numa altura em que nos Estados Unidos esses temas estão mais do que nunca na agenda. Tantas vezes acusada de ser como frei Tomás - faz o que ele diz mas não faças o que ele faz -, a estação que nas últimas três telenovelas abordou o racismo, a violência contra as mulheres e o assédio sexual agiu na vida real como na ficção.

Além de Waack, também um dos cantores sertanejos mais bem-sucedidos, Victor Chaves, da dupla de irmãos Victor & Léo, foi imediatamente afastado do programa The Voice Kids depois de a sua mulher o ter acusado de agressão. Como notou Maurício Stycer, colunista do jornal Folha de S. Paulo, primeiro editaram as imagens já gravadas, deixando apenas as opiniões dos outros jurados, incluindo Léo, e logo depois anunciaram uma dupla sertaneja feminina como substituta.

E um participante da edição número 17 do Big Brother Brasil, o médico Marcos Harter, foi expulso horas após serem reveladas imagens de coação sexual sobre uma concorrente.

Mas o caso que dá nome a este texto e serviu de referência a todos os outros ocorreu ainda no início de 2017: Su Tonani, figurinista da Globo, denunciou o assédio persistente - "até colocar a mão esquerda na minha genitália" - do eterno galã José Mayer.

Como a popularidade de Mayer supera a de Waack, a de Victor e a de um concorrente do BBB, a emissora demorou quatro dias a reagir. Foi só depois do princípio de rebelião de atrizes e apresentadoras, que invadiram as redes sociais com as palavras de ordem "mexeu com uma, mexeu com todas", que a Globo decidiu suspender o ator por tempo indeterminado. Pela corajosa mudança de paradigma, na ficção e na realidade, num país declaradamente machista e veladamente racista, a emissora está de parabéns - as atrizes e apresentadoras que deram o empurrãozinho também.

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