Temer treme

Poucos ambientes são mais viciados e viciosos do que o da política brasileira - talvez o do futebol português se aproxime. E é a uma máxima antiga do futebol português que Michel Temer recorre para gerir o dia-a--dia do Planalto. Dizia Pimenta Machado, antigo patrão do V. Guimarães, que "no futebol português o que é verdade hoje é mentira amanhã". Temer, que tudo teme e que por tudo treme, age segundo o lema "no meu governo o que é verdade agora é mentira daqui a pouquinho".

O último exemplo é já de 2018. O deputado Pedro Fernandes estava garantido como novo ministro do Trabalho, em substituição do demissionário Ronaldo Nogueira, celebrizado pela portaria que facilita o regresso do trabalho escravo ao Brasil; horas depois, os jornais noticiaram que Ronaldo Fernandes, afinal, fora vetado por José Sarney, exemplo acabado do coronelismo à brasileira e patrono de Temer. Motivo: é de um clã político rival do de Sarney no Maranhão, estado (des)governado pelo antigo presidente por meio século.

Mas Temer não recua só por medo de Sarney. Em novembro, decidiu fazer uma remodelação governamental, trocando os 17 ministros candidatos a alguma coisa nas próximas eleições; como os ministros lhe mostraram os dentes, o presidente, acuado, reconsiderou e eles lá continuam no cargo - mas mais preocupados com as suas pré-campanhas eleitorais, claro. Ainda em matéria de remodelações, anunciou a substituição de um ministro do aliado mais poderoso, o PSDB, por um do seu partido, o MDB; dadas as reações ferozes do parceiro de coligação, assustado, voltou atrás.

Temer tem medo também do número dois do Estado, o presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia: autorizou uma insólita ação das Forças Armadas numa manifestação popular em Brasília para no dia seguinte, amedrontado com as críticas de Maia, revogar a medida. E, claro, teme o mercado: anunciou que desistira de tentar aprovar a impopular reforma previdenciária mas, após um chilique das bolsas, disse, aflito, 24 horas depois, que "jamais desistirá" dela.

Apesar de ter meros 3% de popularidade, outro dos pânicos do presidente entretanto é com a imagem: depois de ter resolvido ficar no Brasil a tentar sobreviver a mais uma denúncia contra si em vez de viajar para o encontro dos líderes do G20, embarcou para a reunião em Hamburgo com receio de que o acusassem de paralisar o governo. E no tal decreto em que facilitava o trabalho escravo para fazer um carinho aos deputados latifundiários que se reúnem na chamada Bancada do Boi - e de quem tem muito medo, diga-se de passagem - voltou atrás ao ver o impacto internacional negativo. A propósito, Temer tem até medo de Gisele Bündchen: ao extinguir uma reserva amazónica, ouviu críticas de todos os lados, inclusivamente da ex-übermodel, a quem informou em primeira mão, pávido, que desistira do projeto.

Os dois maiores medos do presidente do Brasil, contudo, são outros. O primeiro é de ser preso: para dar ares de ético estabeleceu como baliza que demitiria ministros denunciados pela Procuradoria-Geral da República, mas como acabou ele próprio denunciado recuou e agora não delimita mais nada.

O segundo é da verdade: quando Joesley Batista, o empresário corrupto com quem se reuniu na calada da noite e que dizia mal conhecer, afirmou que o presidente até usara o seu jato para uma viagem particular, negou; perante as provas, trémulo, disse que afinal sim, viajara à conta do amigo, ou ex-amigo.

Entretanto, para o lugar do tal ministro do Trabalho vetado por Sarney escolheu Cristiane Brasil, deputada que se notabilizou por querer proibir decotes e minissaias no Congresso mas que votou pelo impeachment vestida com uma camisa da seleção e é filha de Roberto Jefferson, o corrupto confesso que delatou o mensalão. Como Cristiane tem questões laborais pendentes com empregados seus, os tribunais travaram a sua nomeação para o ministério que trata, precisamente, das questões laborais. Aguarda-se pois a qualquer momento novo recuo de Temer, porque no governo dele "o que é verdade agora é mentira daqui a pouquinho".

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