A pátria em chuteiras

O bloqueio dos caminhoneiros (camionistas) gera filas de 24 horas nas bombas de gasolina, cancela milhares de voos, deixa prateleiras de supermercado vazias, fecha hospitais e farmácias por falta de remédios, reduz rondas policiais, faz acumular toneladas de lixo. Mas confusão mesmo, com direito a xingamento aos grevistas e reações de desespero, é nas bancas de jornais (quiosques).

Cadê as figurinhas (cromos) da Copa? Para angústia dos colecionadores, e dos donos das bancas, estão bloqueadas numa estrada qualquer.

O episódio revela aquilo que toda a gente já sabe mas às vezes precisa de ver para crer: Copa do Mundo no Brasil é caso sério. Não o futebol - há pequenos países europeus que gastam mais tempo e saúde com ele - mas ela, a Copa do Mundo.

Todos os anos, crianças e jovens e mães e pais e avós e avôs por todo o Brasil pintam as ruas, as paredes, os prédios e as calçadas das suas ruas com as cores do país durante o mês do Mundial. Há quatro anos, nas vésperas do Mundial 2014, a imagem de um moleque descalço de 17 anos, de lata de tintas verde e amarela na mão, a colorir o passeio do seu bairro, em São Paulo, ficou na memória. Já lá vamos.

Luiz Felipe Scolari, no seu consulado como treinador de Portugal, insistiu que os portugueses usassem bandeiras na janela de casa durante o Euro 2004 porque no seu país isso é tão natural como respirar.

Nos dias de jogos dos canarinhos, então, é feriado. Pode-se circular sem trânsito na Avenida Paulista e mergulhar à vontade em Ipanema. Os solenes juízes do Supremo Tribunal Federal já anunciaram o adiamento da sessão do dia 17 de junho, que coincidia com o horário do Brasil-Sérvia, porque prioridades são prioridades.

É o país um dia definido por Nelson Rodrigues como "a pátria em chuteiras".

Apesar da crise, que levou milhões de brasileiros ao desemprego e à contenção rigorosa de despesas, a venda de televisões aumentou 42% em maio, segundo dados da Panasonic e da associação Electros. É sempre assim em ano de Copa, mas desta vez mais ainda porque o Magazine Luiza, rede gigante de eletrodomésticos, apelou em campanha publicitária ao segundo desporto nacional dos brasileiros, a superstição: "Não acredito que você vai assistir a esta Copa na mesma TV em que viu os 7-1", espalhou, numa alusão à humilhante goleada da Alemanha sobre o Brasil em 2014 e que virou até frase feita - "mais um golo da Alemanha..." - quando dois brasileiros comentam entre si a última mazela do país.

Em sentido contrário, sucedem-se reportagens com quem mantém em casa o velho televisor onde viu Pelé, Rivellino, Jairzinho, Tostão e companhia a conquistar o tricampeonato brasileiro de 1970, no México, ou de quem guarda como relíquia o radinho de pilha onde ouviu o mesmo Pelé, com Didi e Garrincha e Djalma e Nilton Santos conquistarem o mundo pela primeira vez, em 1958, na Suécia.

É em torno desses velhos ou recém-comprados aparelhos que se vão reunir os mais fanáticos, aqueles que sabem de cor a vida e obra tanto do Neymar como do lateral da Arábia Saudita, e os menos, aqueles que até perguntam "quem é a bola?".

No, de longe, maior mercado, entre 130 países, da Panini, a produtora dos álbuns de figurinhas, todos eles, dos fanáticos de profissão aos de ocasião, compram-nas e trocam-nas como loucos. "Eu passo horas a fio com o meu neto a colá-las antes das Copas", disse um dia uma avó, chamada Dilma Rousseff, talvez na sua única declaração pública sobre futebol.

Um dono de banca de jornais, entretanto, contou em reportagem porque ficou quase imune ao efeito da greve dos caminhoneiros e ganhou filas de clientes. "Por norma, quando vou para casa à noite, deixo os jornais e as revistas dentro da banca, nem faço caso, mas levo as figurinhas da Copa num cofre, porque são elas que têm mais valor real e potencial."

Noutra reportagem, sobre as ruas e os passeios que começam a ser coloridos de verde e amarelo, revela-se a identidade do tal moleque de 17 anos fotografado de lata de tinta na mão a ajudar a pintar o seu bairro para a Copa de 2014. Chama-se Gabriel Jesus e é hoje, quatro anos depois, o dono da camisa 9 da seleção de Tite.

Em São Paulo

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