A banalização do absurdo

O futebol português, o único ambiente no mundo que é quase tão tóxico como o da política brasileira, usou e abusou de um expediente chamado blackout para combater a imprensa que lhe desagradava: jogadores, treinadores e dirigentes dos principais clubes, de vez em quando, deixavam de falar à comunicação social por período indeterminado de forma a tentar asfixiá-la. Era, claro, um método ineficaz.

Jair Bolsonaro, o presidente do Brasil, inventou o seu oposto - white in? - para dar cabo dos jornalistas e dos cronistas que lhe são hostis: não se cala.

Os repórteres, incluindo os correspondentes internacionais, ficam numa ansiedade angustiada sem saber se desenvolvem a última declaração absurda do chefe de Estado, se se ocupam da penúltima e da antepenúltima ou se esperam pela próxima e pela seguinte.

Como, pelo meio, a ala dos ministros bizarros concorre com o chefe e os filhos entram em competição com o pai num interminável campeonato verborrágico, confundidos e paralisados, os escribas optam por não escrever nada que realmente importe.

O white in, no fundo, vira um blackout mas muito mais eficaz.

Os colunistas, entretanto, passam por uma angústia ansiosa semelhante: o que fazer perante esta espécie de banalização da aberração, do ilógico, do escabroso, do irracional, do aviltante, do insensato, do... Pois é, os adjetivos esgotam-se.

A propósito, Sérgio Rodrigues, escritor, linguista e colunista do jornal Folha de S. Paulo, chamou o presidente da República de nauseoso, horrípilo e quizilento. Alguns leitores pensaram que se tratava de neologismos - mas não, são palavras registadas em dicionário. Embalado por essa dúvida, lançou uma espécie de concurso de neologismos entre amigos a propósito de Bolsonaro.

"Mórtigo, brúmbio, escosso, bilinhento, vômil, peçoncôrnio, neféstilo, nojúnculo, cloástico, peidófilo", respondeu de imediato Fernanda Torres, atriz e escritora. "Carniciliano, lambetrumpeiro, destruirento, fascisqueiro", disse outro. "Putrecéfalo, flatófago, anemolento, jequitibundo, chorumentalista, arregolitoso, suga-sebo, rancorífico, furicocida, desmalmado, retróloquo, fecaficionado, falsicultor, borramínguas, jebólatra", acrescentou mais um. E por aí adiante

Antonio Prata, outro colunista do mesmo jornal, dedicou uma crónica inteira a falar de Bolsonaro não falando de Bolsonaro. "Vamos mudar de assunto? Não aguento mais falar do B, pensar no B, parei até de pronunciar o nome B. Damos trela e espaço mental pra essa lástima, é o dia inteiro isso, pior que Orkut em 2007, a gente acaba deprimido. É preciso criar nossas próprias pautas, nossos respiros...", escreveu.

O mestre Ruy Castro, ainda na Folha, desabafou no início do seu último texto: "Andei pensando em demitir Bolsonaro desta coluna. O papel em que ela é impressa não tem a gramatura necessária para absorver as lambanças que lhe saem pela boca. Além disso, o jornal é um objeto que entra nas casas de família, costuma ser lido ao café da manhã. Não fica bem ficar citando um elemento que, depois de recomendar lavar o pénis com água e sabão, como fez há tempos, acaba de sugerir que se faça cocó dia sim, dia não."

Depois da publicação desta coluna, Bolsonaro disse que "cocozinho petrificado de índio barra licenciamento de obras", anunciou o fim dos radares móveis no país, que ao lado do combate à multa por excesso de velocidade e à determinação do fim da obrigatoriedade de cadeirinhas para crianças nos carros fará do Brasil uma espécie de Mad Max 5, e imiscuiu-se na política de um país vizinho ao dizer que se a "esquerdalha ganhar na Argentina", o Rio Grande do Sul, o estado ali ao lado, tornar-se-á um Roraima, aonde chegam refugiados venezuelanos. E continuou imparável o dia inteiro.

Entretanto, um pedido de perdão aos leitores por nesta coluna se citar outros colunistas, mas é que no Bolsonaristão há tanto assunto que falta assunto.

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