Ratos no liceu e as prioridades trocadas

Há quatro meses, o DN contava como os alunos de uma escola bem no centro de Lisboa, daquelas que até ficam frequentemente bem vistas nos rankings e tudo, tinham assistido a um espetáculo insólito. Cinco ratazanas numa árvore, outras três no telhado de um pavilhão - bem visíveis, estas, imunes ao rebuliço dos miúdos. Coisa de somenos, uma árvore cortada e o problema resolvido, garantiam os responsáveis. Na semana passada, a mesma secundária foi obrigada a fechar durante quatro dias para uma desratização de urgência. Não porque o ministério tenha dado ordem ou sequer mostrado preocupação pelo sucedido logo no início do ano letivo, mas simplesmente porque o diretor percebeu que a decisão era inadiável - depois de várias ratazanas terem sido vistas a andar sobre a comida no refeitório dos professores e até dentro de salas.

Esta mesma escola já foi notícia neste ano letivo, que ainda agora arrancou para o segundo período, por ter os balneários de tal forma degradados que os professores de Educação Física se recusaram a dar aulas enquanto não houvesse condições mínimas para os alunos. Mas também o foi pelo gelo que se faz sentir nas salas de aula - aquecimento não existe, muitas janelas nem sequer fecham e há pavilhões que deixam entrar água sempre que chove. E, claro, o problema mais grave de todos: amianto nos telhados.

A Secundária do Restelo não será caso único, mas é o que melhor conheço - e sobretudo consigo comparar o estado atual da escola com o de há duas décadas, quando eu própria fui lá aluna. Dizia-me outro dia uma antiga professora, que ainda por lá anda, que “aqueles meninos são uns heróis”. Dei a coisa por exagero típico de quem se apega, mas tenho vindo a entender que a afirmação era fotográfica, desprovida de recursos estilísticos. É realmente preciso ser-se especial para aguentar esta total falta de respeito e ainda assim estar disposto e entusiasmado para aprender.

Como é possível que se deixe uma escola no centro de Lisboa, num bairro de classe média/média alta, que fica bem colocada nos rankings e tem um número razoável de estudantes para o espaço que ocupa chegar a este estado? Não é que me pareça que os miúdos desta devem ter melhores condições. Simplesmente, se isto acontece num estabelecimento com tanta visibilidade, só posso imaginar as condições miseráveis em que terão de estudar os miúdos que frequentam escolas menos favorecidas.

Gastou-se milhões em escolas cheias de condições, mas os miúdos passam frio porque não há dinheiro que chegue para a conta da luz se o aquecimento for ligado. Apostou-se em computadores e quadros tecnológicos, mas a rede wireless não suporta sequer abrir uma página do motor de busca. Andamos a discutir a venda de bolos e fritos nos bares, mas há ratos a passear por cima da comida. Talvez esteja na hora de rever as prioridades na educação dos nossos filhos. E de deixar de aceitar o que é simplesmente inaceitável.

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