E as sardinhas, senhores?!

Como uma horrenda coleção apresentada fora de horas, a notícia repete-se sempre na primavera-verão: ai Jesus, que se vão acabar as sardinhas e é preciso proibir já a pesca. Os portugueses, que são doidos por elas - de longe os maiores consumidores da Europa -, começam a enlouquecer com a perspetiva de ficarem em carência e logo se reviram de vontade de provar as primeiras do ano, pequeninas e gordinhas e a pingar no pão. Os pescadores, esses vão aos arames com a perspetiva de lhes estragarem boa parte do difícil negócio que lhes põe o pão na mesa. E lá tem de vir o ministro da pasta dizer que a coisa não é bem assim, que umas semanas sem pescar e as quotas estão repostas e tudo acabará em bem, com uma almoçarada de sardinha assada e sem faltar no prato nos festejos dos Santos.

Porque é que se insiste neste terrorismo? Bem, aparentemente, a sardinha está em risco por estes mares - come-se tanto por cá e por Espanha que, dizem os especialistas de Bruxelas, baixou drasticamente a quantidade de peixe e é preciso salvar a espécie, que, pasme-se, não f ôssemos nós e podia viver até aos 14 anos! Palavra do IPMA, não minha - que disto só sei que me sabem muito bem -, que esclarece que por estas bandas a Sardina pilchardus (não confundir com a Sardinella aurita, denunciada pela barriga e que vive lá para o mar Mediterrânico) não dura além dos seis ou sete. Já se imagina porquê.

E conforme os especialistas nos vão recomendando contenção - ainda no ano passado clamavam que Portugal devia parar de pescar sardinha durante 15 anos; leu bem, 15 ANOS - e Bruxelas aperta a rede das quotas nós parece que ficamos mais irremediavelmente precisados de comer sardinhas do que nunca. E vá lá, ela vai chegando. Já não será tanto da lota aqui ao lado, mas vem de Espanha e de França e de Marrocos, nossos principais fornecedores, que já garantem dois terços das doses aqui servidas. Sobretudo de Espanha, que como é sabido tem muito mais mar do que nós... não? Bom, então será certamente porque as ditas aprenderam que não é boa ideia andar por estas marés e preferiram desviar caminho aqui para o lado, a ver se se safam.

Mas voltando ao que interessa, que é o risco de extinção das sardinhas, o problema é que há muita concorrência na nossa costa. Não somos os únicos a deliciar-nos com sardinhas - há os golfinhos, as aves marinhas, outros peixes...

Seja como for (diz o INE, que é fonte fiável), desde 2010 que as nossas importações de sardinha - sobretudo de Espanha, já tinha dito? - têm vindo a crescer a um ritmo médio de quase 12% ao ano. O que, evidentemente, tem também efeito no preço que pagamos por elas, que mais do que triplicou em meia dúzia de anos, ainda que não sejam propriamente os nossos pescadores a ficar com uma fatia mais gorda.

Felizmente que as sardinhas se ficaram aqui por perto... Tivessem fugido para mais longe e qualquer dia um prato de sardinhas saía mais caro do que um de lavagante e ostras num restaurante com vista para o mar.

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Ricardo Paes Mamede

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