Do cheiro da tinta e do papel

Lembro-me de ser miúda e, naquelas alturas de receber presentes, repetir, Natal após Natal, anos atrás de anos, sempre o mesmo pedido a pais, avós e tios. Recordo-me de apontar nas livrarias, de assinalar com uma cruz pequenina cada capa desejada a brilhar nas páginas do catálogo do Círculo de Leitores, de ler e reler as cinco linhas em que se resumia o enredo das novas aventuras que havia de conhecer - entre a avidez dos primeiros dois terços do livro e o controlo a que me obrigava quando me aproximava do fim, por pena de ver a história acabar. Ainda hoje leio a esses dois ritmos. E se antes tinha alguma vergonha de não chegar à última página com o livro imaculado, agora até acho graça às cicatrizes deixadas nas páginas, na capa e na lombada - as dobrinhas nos cantos a marcar o lugar onde me interrompi, uma frase destacada, o borrão de uma pinga de café seca, um recibo de qualquer coisa ali esquecido -, que me fazem viajar no tempo quando volto a cruzar-me com aquelas histórias. Chamem-me antiga, mas acho que nunca me habituarei a ter prazer na leitura sem aquele peso certo nas mãos, o cheiro da tinta e do papel a acompanhar a viagem em que embarco sempre que entro numa nova escrita. E aparentemente não estou sozinha.

Enquanto as vendas de livros físicos começam a retomar a tendência de crescimento na Europa, os kindles e primos, depois de um lançamento prometedor e de uma década a subir, estagnaram, representando há três anos menos de um quarto do mercado livreiro global, e até sofrendo quedas em países com hábitos de leitura muito mais desenvolvidos e com maior aptidão para o digital, como o Reino Unido, a Alemanha ou até os Estados Unidos.

Não posso, por isso, deixar de me surpreender quando assisto a certos passos dados por quem mais devia estar a investir na criação de laços entre as crianças e os livros. Como a proposta d'Os Verdes, feita lei na semana passada com abstenção do CDS e aprovação de todos os outros partidos, para fomentar a desmaterialização dos manuais escolares. Há argumentos na devastação da floresta, mas num momento em que tanto se fala de economia circular (reutilizar ao máximo os recursos, reduzir o desperdício ao mínimo), o papel é uma das indústrias onde a reciclagem está mais avançada - nos jornais e nos livros, chega a 80% a utilização de fibras recuperadas em novas publicações. Podemos discutir o peso das mochilas que os miúdos levam para a escola, mas isso resolve-se com cacifos e boa coordenação entre os professores das diferentes disciplinas. Há vantagem na integração com outros conteúdos e na criação de uma escola aberta (na era digital, os alunos podem explorar, procurar respostas e encontrar áreas de interesse sem limites), mas isso deve funcionar como complemento. Não é comparável às vantagens que resultam de dar um livro a uma criança pequena e deixá-la aprender, comunicar e interagir com ele.

Num país como Portugal, onde as vendas caíram brutalmente nos últimos cinco anos - só agora começa a haver uma tímida recuperação no mercado livreiro - e no qual ler acima da média se traduz em despachar cerca de um livro por mês (em França, por exemplo, esse valor é superior a um por semana), a ideia de o Estado chamar a si a função de garantir manuais escolares a todos os alunos, não oferecendo-os às famílias, como fazem algumas autarquias, mas antes emprestando-os e exigindo a devolução em condições de serem reutilizados é um desincentivo adicional.

Como é que se incute num miúdo de 7 ou 8 anos o gosto pela leitura, quando a sua casa chegam poucos mais livros do que os manuais escolares - e esses têm de ser tratados com todo o cuidado, sob pena de os pais não receberem os do ano seguinte? Que tipo de relação criarão essas crianças com os livros? Como poderão olhar para a montra (física ou digital) de uma livraria e não sentir alguma aversão?

Apresento, naturalmente, uma visão simplificada de um tema que é complexo, mas a base está lá. Sem que se alimente desde cedo certos hábitos, sem que se contribua e incentive a construção de uma relação afetiva com os livros - sobretudo entre os que têm menos acesso a eles -, será muito difícil descolar Portugal do fundo da tabela dos que mais leem.

A estatística mais recente do Eurostat revela que apenas 41% dos portugueses leram um livro nos últimos 12 meses - pior, só na Roménia e na Turquia. Para produzir uma mudança no comportamento, há que reconhecer o papel fundamental que têm nisto os manuais escolares.

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