Desculpe, tenho um bicho na sopa

Já muitos sentimos saudades do velhinho galheteiro de vidro a escorrer gordura, desaparecido das mesas do restaurante. E das castanhas em cartuchos feitos ao momento das páginas de jornais das vésperas. Possivelmente há quem nem desconfie, mas existem regras que ditam que carne, peixe e vegetais serão preparados em bancadas distintas e lavados em cubas diferentes. Estas e muitas, muitas outras regras apareceram para garantir que a comida servida nos restaurantes é manipulada com o máximo de higiene.

Hoje é inimaginável uma cozinha que não cumpra as regras básicas de higiene sobreviver à ação da ASAE. É porém bem real a possibilidade de estar sentado à mesa e um pitbul a tentar surripiar-lhe o bife do prato. Ou ter um ataque de asma que o obriga a sair a meio do almoço porque acabou de chegar ao restaurante uma senhora com o seu lindo gato persa. Ou estar a comer tranquilamente até ser interrompido pelos gritos de uma catatua, surpreendido por um coelho a partilhar a alface do dono, assustado pelo hamster a espreitar da mãozita do miúdo ao lado.

Tudo isto é possível se decidir comer num restaurante que permita a entrada de animais - responsabilidade sua, é certo, pois a esmagadora maioria não os aceitará. Como poderia, com estes tantos riscos, e piores ainda...

A verdade é que a lei existe, faça a vénia o senhor deputado do discurso de minuto e meio em apneia, campeão das causas animais. E dado que a lei se limita a falar de "animais de companhia" - o que se traduz oficialmente por "qualquer animal detido ou destinado a ser detido por seres humanos, designadamente no seu lar, para seu entretenimento e companhia" -, a variedade de bicheza que terá portas abertas nos estabelecimentos que aderirem quase não tem fim.

Se o dono do restaurante gosta muito de cães, pode de repente ver-se obrigado a deixar entrar a cobra que acompanha o excêntrico do bairro para todo o lado - ele jura que é só tamanho, que não é venenosa. A lei é específica a distanciar animais de companhia dos "animais para fins de exploração agrícola, pecuária ou agroindustrial". Mas quando se aceitou a ideia de permitir aos estabelecimentos comerciais que o queiram deixar entrar animais ninguém pareceu ralar-se com o facto de isso poder significar comer com um rato à mesa. Mesmo que na respetiva bola de passeio.

Espantosamente, também parece haver poucas reservas sobre as normas de higiene que necessariamente deviam acompanhar esta, de forma a garantir que a segurança, nomeadamente a segurança alimentar, não é posta em causa com a permanência de animais em locais de comércio, especificamente restaurantes. A única ressalva da lei é que os bichos devem ser afastados de áreas de serviço e zonas onde estão expostos alimentos para venda. Montras de bolos, carrinhos de sobremesas, stands de peixe e afins, portanto. Nada contra babar-se ou encher de pelos o prato do vizinho - que cabe muita coisa na estabelecida necessidade de permanecer "devidamente acondicionado, em função das características do animal". E mesmo a recusa de acesso "aos animais de companhia que, pelas suas características, comportamento, eventual doença ou falta de higiene, perturbem o normal funcionamento" da casa tem muito que se lhe diga. Irá o próprio dono revelar que trouxe o bichinho consigo porque não teve coração para deixá-lo em casa assim, tão doentinho e fragilizado?

Quanto a mim, tenho alguma curiosidade em saber como se irão dirimir conflitos provocados pelos animais que bicaram, arranharam, morderam, picaram, infetaram ou infestaram em estabelecimento alheio.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.